quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O Facebook aproxima... ou não!

O filme A Rede Social (2010) me ganhou em duas cenas. Nelas encontramos o protagonista, Mark Zuckerberg, conversando com duas garotas diferentes. São momentos diferentes em sua vida. Os ambientes - um barulhento e lotado e o outro vazio e silencioso - não poderiam ser mais diferentes. Mas a constatação das duas é a mesma: estão diante de um gênio que faz de tudo para não ser querido.

O esmero com que o diretor constrói ao longo de duas horas, através de alguns pontos de vista distintos, diversas interpretações de mundo é extremamente instigante/frustrante. Instigante porque nos faz refletir sobre nossas próprias opções e possibilidades de lidar com o nosso mundo; frustrante porque não podemos gritar aos personagens, avisando quando eles estão tomando um caminho equivocado.

Vemos o “NERD” (vivido magistralmente por Jesse Eisenberg) que toma sob sua tutela criar algo grandioso, sem se importar, no início, com relação ao dinheiro. Por seus olhos o mundo é algo cinza, e somente quando cria algo se sente completo; Temos o amigo que enxerga uma oportunidade de lucrar junto a outro, o melhor dos panoramas, mas logo se sente na obrigação de mostrar ao mesmo a inocência de suas escolhas, tomando para si o poder de decidir; e ainda dois gêmeos que se sentem lesados e lutam de qualquer forma para recuperar algo que julgam ser deles.

David Fincher, com maestria, nos coloca diante do dilema dos dias atuais: ouvimos o que nos dizem ou o que queremos ouvir? Vemos o que as pessoas fazem ou somente aquilo que nos afeta? Você está realmente prestando atenção? Ironicamente, Mark cria uma ferramenta que busca facilitar a possibilidade das pessoas se conhecerem, mas acaba se afastando daquele que considerava seu (talvez único) amigo.

Um capítulo à parte, a trilha sonora faz o que se espera desse instrumento em um filme: ajuda o espectador a sentir melhor as emoções presentes em cada cena. Na cena dos créditos iniciais, quando Mark corre pela faculdade, a música nos convida a adentrar aquele mundo junto a ele, iniciando um processo de imersão que acompanha todo o filme.

Antes de assistir ao filme, eu já havia lido o livro Bilionários Por Acaso, que conta a mesma história (confira o post: http://ligadapoltrona.blogspot.com/2010/12/direto-da-prateleira-bilionarios-por.html). No livro, a minha sensação era a de isenção do autor, quanto a julgar quem é certo é quem é errado na história. Ele deixava claro que ocorreram erros de ambos os lados, e gerou em mim o seguinte questionamento: Quem somos nós para julgar? No filme, de forma sutil, o diretor dá sinais de ter sim pendido para um dos lados, mas não impõe essa opção à audiência. Para mim, o filme só destacou mais uma vez que o criador do Facebook teve suas falhas, sim, mas que ele (como todos nós) é vítima de um mundo em que a solidão física tenta afogar suas mágoas na abundância de amigos virtuais.

O polegar continua apontando para cima: ótimo filme, ótimo diretor, ótima discussão.


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

TRON: A Odisséia começa...


Desde que foi anunciado o projeto TRON: Legacy, a luz vermelha de déjà vu se acendeu em minha mente. Lembrava de ter assistido a algo desse tipo anos atrás, quando ainda era bem novo. Mas as lembranças não eram muito claras e, para poder saborear melhor essa nova produção da Disney Studios, resolvi assistir a TRON: uma Odisséia Eletrônica (1982) e devo dizer que gostei muito do que vi (contrariando as minhas próprias previsões, rs).

O que mais me surpreendeu foi a história do filme, bem estruturada e, considerando quando foi feita, realmente à frente do seu tempo. Matrix e tantos outros a que assisti nos últimos anos perderam um pouco no quesito originalidade.

Kevin Flynn (Jeff Bridges) é um jovem engenheiro de Softwares que trabalha para uma grande corporação chamada ENCOM, mas acaba sendo passado para trás por um dos chefões. Kevin decide invadir o servidor da ENCOM com a ajuda de dois amigos, mas acaba transportado para o mundo virtual da MCP (cérebro do sistema) e precisa ajudar os programas a se libertarem da tirania da mesma, enquanto procura provas da traição que sofreu.

Mas e os efeitos especiais? Óbvio que se comparados com as possibilidades de hoje são fracos. Mas, colocando-os na perspectiva certa, eles funcionam muito bem e significaram o primeiro passo para o que assistimos hoje. As atuações não são lá essas coisas, mas nada que atrapalhe na diversão. A corrida de Light Cycles é muito bem feita e transmite bem o desafio dos competidores.

Como ainda não assisti ao novo filme, ficarei devendo comentários sobre o mesmo, que virão na segunda parte desse post. Mas já posso comentar algo: a trilha sonora feita pelo duo francês Daft Punk, que estou escutando enquanto escrevo. Torço para que o filme esteja à altura, porque uma vez que você escuta essa trilha, não consegue parar. Muito boa mesmo.

Bom, por enquanto é isso. Recomendo tanto o filme (com a mente aberta, hein...) quanto a trilha sonora.


Hanna, a pequena assassina

Saoirse foi indicada ao Oscar aos 13 anos.




O diretor Joe Wright dirigiu dramas de época clássicos ("Orgulho e Preconceito", "Desejo e Reparação"), e ficou contemporâneo ("O Solista"), mas agora ele vai além de seus limites, e provavelmente gostaremos!
Saiu o trailer de seu misterioso e complicado novo trabalho. "Hanna" é sobre uma garotinha de 14 anos, interpretada pela sensacional Saoirse Ronan ("Desejo e Reparação", "Um olhar do paraíso", "Cidade das sombras"), que é criada pelo pai vivido por Eric Bana ("Hulk", "Tróia") para se tornar uma máquina mortífera. Alguma semelhança com "Kick Ass"? Talvez. Aqui a história começa no Leste Europeu, envolve a CIA, a menina passa pelos dramas da adolescência e ainda precisa matar e lutar para viver uma vida de liberdade.
A trilha sonora está sendo composta pelo duo do Chemical Brothers, e o filme ainda tem no elenco Cate Blanchett e Olivia Williams.
Com uma ambientação bastante interessante, que quase nada lembra um produto hollywoodiano, o filme estréia no Brasil dia 13 de maio.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Teatro: Bárbara Paz é o Inferno

Hell (Bárbara Paz) deve fumar uns
 15 cigarros ao longo do espetáculo
O diretor de cinema Hector Babenco (Carandiru, O Passado, O beijo da mulher aranha) estava totalmente parado há mais de dois anos, porque segundo ele "cansou de passar o chapéu, tudo é subvencionado pelo governo como se fosse merenda cultural", e casado com a atriz Bárbara Paz redescobriu o teatro, uma vez que ela lhe apresentou ao polêmico romance "Hell: Paris 75016", ele o adaptou para os palcos com a ajuda de Marco Antônio Braz.
Fui assistir a peça com certa expectativa em torno da atriz Bárbara Paz, 35 anos. Atriz e modelo gaúcha, ela ganhou notoriedade ao participar do reality show "Casa dos Artistas" no SBT, e ficar com o cantor Supla. Ao sair do programa protagonizou duas novelas na emissora, todas adaptações de dramalhões mexicanos. Mas o que me chamava a atenção era sua dedicação ao teatro, sempre tinha algo com ela nos palcos, e nunca algo que parecia pouco desafiador. Por este motivo ela chegou a Rede Globo pela porta da frente, convidada pelos diretores e autores, pra viver o papel de uma jovem problemática que se alimentava de álcool na novela "Viver a vida", e estará na nova novela das sete de Walcyr Carrasco.
"Eu sou uma putinha. Daquelas mais insuportáveis, da pior espécie. Meu credo: 'Seja bela e consumista". É assim que começa a peça, baseada no livro de Lolita Pille, que escreveu o livro semi auto-biográfico, sobre jovens ricos, fúteis, drogados, consumistas e que fazem sexo como quem troca de roupa. Tudo o que Hell, a protagonista, quer é arrumar um marido pra continuar a pagar as contas que seu pai banca, mas eis que em meio a tantas baladas ela se apaixona pela pior espécie de homem, Andrea, tão rico e podre quanto ela. Assim como o livro, a peça não poupa a platéia, e tudo o que precisa ser dito, é dito. E assim temos um retrato cruel da juventude atual, seja em Paris, São Paulo ou Morro do Alemão. Curioso foi sair do Teatro do Sesi, na Av. Paulista e dar de cara com duas garotas muito bem vestidas, fumando, e com todo um ar da Hell. A peça não mentiu...
Esta é a primeira adaptação do livro para os palcos feita no mundo, mas não deverá ser por muito tempo. Hector Babenco usa e abusa do talento da esposa pra fazer com que Hell, como num monólogo, nos conte tudo, e se transforme no palco conforme o texto avança. Usa pra isso alguns artifícios, como muitos jogos interessantes de luz e muitas trocas de roupa. Mas só peca ao colocar Andrea no palco, vivido pelo belo e inexpressivo Ricardo Tozzi. O personagem é frio, mas o ator também entrega uma atuação mecânica, que contrasta demais com a de Bárbara, e que não me convenceu de que Hell tenha se apaixonado por ele.
Não se sabe se a peça volta em 2011 pra nova temporada, mas ainda vai se ouvir bastante sobre esta elegante adaptação teatral.