Mostrando postagens com marcador filme. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador filme. Mostrar todas as postagens

sábado, 8 de março de 2014

The Square

Num dos momentos do documentário "The Square" (A Praça), um motorista militarizado diz que as manifestações anti-presidente Hosni Mubarak que tomaram a praça Tahrir eram formadas por pessoas que não tinham o que fazer, por ladrões e bandidos com tal convicção que ainda olha pro documentarista e diz "ah, você sabe disso porque esteve lá, né?". O documentarista não responde. A edição mostra momentos antes a praça tomada por ativistas, manifestantes, músicos, crianças e mulheres em barracas num sistema de comunidade invejável - numa barraca há pessoas fazendo comida, em outra área há uma grande fogueira e pessoas cantando, numa outra barraca homens conversam sobre o presidente ainda não ter entendido que para terem menos corrupção, mais educação e saúde, ele teria que sair do poder, e todos se ajudavam seja por água, comida, abraços ou cigarro. Dentre os manifestantes há o ator de origem egípcia Khalid Abdalla, o protagonista de "O Caçador de Pipas".


a ator Khalid Abdalla em Cairo
 "The Square", da documentarista egípcia Jehane Noujain, acompanha na maior parte do tempo Ahmed Hassan, um jovem revolucionário em seu cotidiano de manifestações por ruas repletas de discordâncias, líderes sem ideais políticos e muita arte de rua. E é pelos olhos e visão política dele que o filme avança. Mas ele não é o único no grupo de revolucionários que querem derrubar líderes corruptos e regimes suspeitos, arriscando suas vidas pra construir uma nova sociedade de consciência. Além dele e do ator, também acompanhamos de perto o muçulmano Magdy Ashour, inclusive sua família.

Ahmed Assan - revolucionário
Após 18 dias de manifestações na praça, em fevereiro de 2011 o presidente renuncia ao cargo, mas meses depois foi preciso outra intervenção pra derrubar o governo provisório militar que não atendeu a demanda pública de criar uma nova constituição. Mesmo sem um candidato que atendesse ao desejo dos revolucionários, as apressadas eleições dividem o povo entre liberais que não querem nem o candidato militar nem ligado a partido religioso, e muçulmanos, que apoiariam o candidato Mohamed Morsi da Irmandade Muçulmana (através do Partido da Liberdade e da Justiça) . Militares ou muçulmanos fundamentalistas? Qual governo seria pior? As manifestações foram um fracasso?

a praça num dia normal
O filme foi acusado de parcialidade ao mostrar os revolucionários como heróis, e não mostrar todos os lados da revolução. Há quem diga que a maior parte do povo foi a favor que os militares limpassem a Praça Tahrir das manifestações (inclusive a transformando num lindo - e abominável - jardim), e que os atropelamentos de manifestantes por tanques que culminaram na morte horrenda de mais de 20 deles, foi apenas consequência de uma revolução desorganizada. Eu discordo, porque mesmo mostrando tudo sob o ponto de vista de poucos manifestantes, os depoimentos de todos deixam claro muita coisa.

a praça tomada por manifestantes
Num paralelo com o Brasil, o que "The Square" mostra é que os interesses políticos contaminam a fé das pessoas de forma tóxica, e o fundamentalismo religioso pode acabar com um país. No começo as manifestações não tinham nada de religioso. Eram apenas jovens querendo mais saúde, educação e um governo que governasse apenas para o povo por uma nova constituição. Na ascensão das manifestações na praça, a Irmandade Muçulmana, uma organização que tenta ocupar todos os espaços das sociedades islâmicas a fim de impor seu lema "Deus é o único objetivo. Maomé o único líder. O Corão a única Lei. A jihad é o único caminho. Morrer pela jihad de Deus é a nossa única esperança" mandou seus fiéis pra praça. Por trás disso estava o interesse da organização em fazer com que esta nova constituição fosse feita segundo seus interesses. Num certo ponto, vemos que com a posse do governo provisório militar, que supostamente havia feito um acordo com a Irmandade, os muçulmanos abandonam a luta. Quando as manifestações contra o então presidente eleito (e aparentemente fantoche da Irmandade Muçulmana) Mohamed Morsi crescem, o personagem ligado à Irmandade Magdy Ashour é chamado pras manifestações pró-Mursio, mas sabe que algo não está certo, e diz "quando a Irmandade chama você pra luta, você deve ir", e sua mãe religiosa quase o descreve como um traidor vagabundo por estar em dúvida do que seria o certo, e é sua filha quem resume tudo ao dizer "mesmo com Mursi no poder, continuo sem plano de saúde".

a diretora Jehane Noujain
Bancado pelo Netflix, o filme teve uma modesta distribuição em salas de cinema, que garantiram a indicação do filme ao Oscar de melhor documentário, o primeiro do sistema de streaming. Da sua primeira exibição em janeiro de 2013 até seu lançamento em janeiro de 2014, o filme ganhou nova edição pra mostrar novos desenvolvimentos políticos. Mas o pior certamente foi o golpe militar de julho de 2013, que derrubou Mursi (e a Irmandade Muçulmana) após desorganizadas e violentas manifestações, suspendeu a reforma constitucional e impediu qualquer tipo de manifestação e qualquer ação da Irmandade Muçulmana (aquela que ajudou em 2011 por interesses próprios).

Curiosamente, Praça Tahrir significa Praça da Liberdade, mas o documentário nem precisa falar isso.


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Blackfish

Todos que já viram um show de baleias sabe o quanto pode ser tocante. Entre 1985 e 1986, o Playcenter em São Paulo teve a presença das orcas Nandu e Samoa, capturadas na Islândia, mas elas estão desde os anos 60 nos parques do grupo SeaWorld nos EUA. Qualquer um que goste um pouco de animais e água vai achar lindo os animais marinhos que obedecem humanos em movimentos, mas ao menos comigo, achei tão lindo quanto intrigante que animais tão grandes pareçam felizes num tanque minúsculo comparado ao oceano. Meu pensamento ocorreu durante e apresentação do show "One Ocean", que substituiu o "Believe" que tinha treinadores interagindo com as baleias na água, e culminou na morte da treinadora Dawn Brancheau, de 40 anos.

a cauda caída
São reflexões ainda mais profundas que o documentário "Blackfish" propõe. A diretora Gabriela Cowperthwaite começa o filme de maneira dramática, com o chamado do parque temático pras autoridades de Orlando, na Florida, onde ocorreu o incidente. Aos poucos ela vai desmontando o show, pra entendermos como aquelas baleias foram parar ali. Entrevista ex-treinadores e colegas de Dawn, especialistas e faz uma série de conexões com outros acidentes.

Pra desmentir o conglomerado do SeaWorld de que as baleias
Dawn amava seu trabalho, mas não compreendia os riscos
assassinas são, sim, assassinas e perigosas em cativeiro, o documentário mostra a origem de grande parte dessas orcas - a Islândia -, e deixa a entender que todas elas não foram salvas, mas tiradas de seu meio por pura ganância. O foco é Tilikum, a baleia assassina macho que matou Dawn, mas já havia vitimado outras duas pessoas - uma delas uma treinadora. Seria Tilikum o grande vilão, ou o encobertamento de fatos pelo parque? Fatos estes, importantes, que nem treinadores tinham conhecimento. E assim, o filme tenta colocar alguma luz na indústria do entretenimento que diz cuidar de animais ao mesmo tempo que os explora.

ex-treinadores seguram o cartaz do filme
Um dos méritos do filme é que, a fim de não parecer completamente tendencioso, usa imagens. Imagens fortes de incidentes, ataques e até mesmo endoscopias nas orcas. E consegue entrevistar alguém que defenda o SeaWorld, mas que não traz fatos do real bem que o parque supostamente estaria fazendo. O filme não traz nada de novo ao gênero, mas toca num assunto do qual todos precisamos pensar. Num certo ponto, um ex-treinador diz "ainda chegará um dia em que lembraremos desses tempos bárbaros quando explorávamos animais".

Um grande destaque no Festival de Sundance do ano passado, o filme foi ignorado no Oscar deste ano, apesar do clamor popular. No Brasil, o filme estréia hoje diretamente na Netflix.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A Nova Família do Quarteto Fantástico

É notório a falta de oficializações da Warner e Fox, e quando o fazem podem até nos surpreender, se as informações já não tiverem vazado anteriormente. Ainda não foi dessa vez que a Fox oficializou o elenco do reboot de "Quarteto Fantástico", franquia que ela muito preza e da qual teve de entrar num acordo com a Marvel pra não perder os direitos, que incluiu a devolução dos direitos de homem sem medo Demolidor. Mas devido a vazamentos em cima de vazamentos, a imprensa está tratando como oficial a recente lista de elenco da família superpoderosa.

Aparentemente, esqueça os dois filmes anteriores porque o diretor
O Sr. Fantástico
Josh Trank (de "Poder Sem Limites") deve pavimentar um caminho bem mais sério pra uma franquia duradoura que pode até se chocar com o universo dos X-Men, da mesma Fox, criando assim um universo homogêneo de mutantes da editora Marvel.

A Mulher Invisível
Sai a divertida Jessica Alba, e entra a séria e muitas vezes fria Kate Mara ("American Horror Story", "Atirador" e "House of Cards") como a Mulher Invisível Sue Storm. Sai o fanfarrão e agora primeiro vingador Chris Evans, e entra o elogiado ator Michael B. Jordan ("Fruitvale Station: A Última Parada") que já trabalhou com Trank em "Poder Sem Limites", como o Tocha Humana Johnny Storm. Sai o inglês Ioan Gruffudd e entra o novo queridinho dos independentes Miles Teller ("Footloose", "Projeto X: Uma Festa Fora de Controle", "The Spectacular Now", "Finalmente 18" e será visto em "Divergente" e "Whiplash") como o Sr. Fantástico Reed Richards. E finalmente sai o grandalhão Michael Chiklis e entra Jamie Bell ("Billy Elliot", "As Aventuras de Tintim" e "Ninfomaníaca") como Ben Grimm, o Coisa.

O que chama a atenção é a nova concepção desta família, com
O Tocha Humana
Kate Mara sendo a mais velha com 30 anos. Um Sr. Fantástico, líder, com cara de adolescente. Sue e Johnny Storm sendo irmãos de raças diferentes. E um Coisa magrinho. Há uma nova concepção de família, e parece estar longe do tradicional.

O gigantesco atraso na produção do filme, ocorrido devido a desacordos em relação ao roteiro, fez com que o nome de Michael B. Jordan estivesse envolvido desde maio, e os nomes de Kate Mara e Miles Teller desde outubro. O nome de Jamie Bell foi a surpresa, já que nas últimas semanas Josh Gad ("Frozen", e a peça "The Book of Mormon") é quem estava atrelado ao personagem. Porém, todo o atraso ainda pode mudar algum dos nomes, já que Teller estaria interessado em viver Dan Aykroyd na cinebiografia de John Belushi, e as gravações poderiam conflitar. 

O nome de Bell também chama a atenção pra possibilidade do
O Coisa
Coisa ser feito por computação gráfica, tendo o magro ator ampla experiência com captura de movimentos ao ter vivido Tintim no filme de Steven Spielberg. De qualquer forma o filme está agendado pra ser lançado nos EUA no dia 19 de junho de 2015, sendo este elenco ou não.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Frances Ha: como viver um dia de cada vez!


Frances tem um sonho e está atrás dele. Mora em Nova Iorque, mas não consegue pagar o aluguel sozinha. Sua melhor amiga, Sophie, divide o apê com ela, até que circunstâncias da vida decidem abalar essa delicada estrutura. E então, nossa aspirante a dançarina precisa rebolar para se sustentar concretamente (dinheiro para o aluguel) e emocionalmente (seus sonhos) no bom Frances Ha (EUA, 2013).

Co-escrito pela intérprete de Frances - Greta Gerwig, indicada ao Globo de Outro de melhor atriz - e o diretor Noah Baumbach, o roteiro nos leva a conhecer o cotidiano de uma mulher de 27 anos insegura e, aparentemente, menos adulta do que se imagina. Frances teme mudanças se essas não coincidirem com o que ela idealizou. Isso se reflete em suas atitudes e decisões, muitas vezes da boca pra fora e impulsivas.


O longa nos apresenta aos diversos endereços que a protagonista ocupa, mesmo que por pouco tempo. Em determinado momento ela se assusta quando alguém lhe diz que ela parece mais velha do que é. "Mas eu só tenho 27", responde ela, quase que querendo convencer a si mesma de que o fato de não estar bem estabelecida com aquela idade não a incomoda. Sua batalha por um lugar só seu surge como uma grande metáfora da busca pelo sentimento de pertencimento, seja a um grupo ou mesmo a um local.

O filme é em preto e branco, algo que o diretor explicou como sendo a vontade de gerar nos espectadores uma nostalgia instantânea. Não sei se isso ocorre, mas essa escolha ressalta um cuidado todo especial com a iluminação, que transforma as sequências de dança e os momentos em locais fechados em especiais. Tente reparar no jogo interessante que a iluminação gera nas cenas em que a Sophie aparece usando os seus óculos (a armação do mesmo se sobressai devido ao reflexo).

O tom naturalista com que os personagens são mostrados facilita a reflexão e a inserção deles em no mundo real, ainda que a indecisão que eles demonstram soa um pouco exagerada por vezes. Os diálogos inteligentes são um dos pontos altos do filme, além da ótima trilha sonora (Bowie surge como hino para nossos personagens).


É um filme agradável, com uma personagem carismática em uma obra cativante e bem humorada. Boa pedida!

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Iguais e diferentes, eles se entendem!



Eles tiveram pequenos desvios de conduta e, por conta disso, são confinados no colégio, em pleno sábado. Os cinco jovens devem passar as próximas horas trabalhando em uma redação de tema bem simples: o que pensam sobre si mesmos! Esse é o enredo de O Clube Dos Cinco (EUA, 1985).

Algo fica evidente logo no início do filme: são cinco pessoas completamente diferentes, estereótipos assumidos do esportista, da princesa, da neurótica, do inteligente e do rebelde. Com o passar do dia, no entanto, eles passam a aceitar (ou pelo menos entender) uns os outros, tornando-se amigos.

Escrito e dirigido por John Hughes, a produção tem um elenco escolhido a dedo (queridinhos da época como Emilio Estevez, Molly Ringwald e Paul Gleason) e busca apresentar a juventude dos anos 80. O início, com a leitura de uma carta, traz a essência do filme em duas frases: 'Você nos enxerga como você deseja nos enxergar' - frase dirigida ao diretor da escola - e 'Passamos por uma lavagem cerebral'. A partir daí o longa mostra esse dia específico na vida dos cinco adolescentes, mas que, para nós espectadores, é um resumo do cotidiano dos jovens. Tudo o que são ou conquistaram sofre o efeito do medo e das frustrações com que são confrontados. 

As diferentes personalidades ajudam Hughes a compor um belo mosaico, onde todas as cores tem sua beleza e sua vontade de se sobressair. Cada um aplica os seus meios para levar aquele dia em frente e tenta demonstrar pretensa superioridade que, aos poucos, se perde nas semelhanças que passam a brotar do grupo. Problemas familiares? Desentendimentos? Um mundo que não os compreende? Eles se interpelam e, naquele microcosmo, verificam que não estavam tão sozinhos quanto imaginavam.

A trama se desenrola de forma orgânica e o ambiente é facilmente absorvido e relacionado às nossas lembranças estudantis. Méritos para o diretor, que dá espaço para que seus personagens nos surpreendam em sua simplicidade. Acabamos por nos aproximar de todos em algum nível. Destaque para a cena em que os personagens, formando um círculo, contam suas histórias. Os intérpretes estão tão à vontade com seus personagens que parece que estamos espionando uma reunião de um clube. O clube dos 5!



Um clássico dos anos 80, merece ser visto porque muito do que apresenta ainda pode ser visto nos dias atuais. Muitas vezes, pessoas são enquadradas em certos estereótipos por conveniência e falta de envolvimento. As pessoas nos enxergam como desejam nos enxergar. Junte-se ao Clube!

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Direto da Telona: O LOBO DE WALL STREET


É possível não gostar de um ou outro filme da longa carreira do diretor Martin Scorsese, mas há algo que todos hão de reconhecer: o brilhantismo e a forma inspirada com que esse gênio constrói os seus filmes. O Lobo de Wall Street (EUA, 2013), lançado há pouco aqui no Brasil, é mais um ótimo exemplo disso.

Baseado na história de Jordan Belfort, um ex-corretor da bolsa, temos um longa que nos dá a mão e nos leva a passear por um mundo aonde o dinheiro é ganho de dia e gasto à noite, de forma despudorada e pelo simples prazer de mostrar que pode. Belfort é introduzido a esse mundo e, eficiente, começa sua própria empresa, com um objetivo claro: transformar o dinheiro dos seus clientes em seu! E aí já surge a inteligência de Scorsese, ao buscar o ridículo de cada uma das situações vividas pelo protagonista, tornando-as, de certa forma, mais palatáveis, mas sem, no entanto, demonstrar condescendência para com esses momentos.

DiCaprio, parceiro já algum tempo do diretor, dá vida ao protagonista, e o faz de forma competente. A transição do corretor iniciante e (quase) inocente para o lobo do título se dá de forma orgânica ao longo das quase 3 horas de filme e nos interessa cada vez mais saber qual o limite do corretor. Suas atitudes se perdem no meio de tantas festas, pó e sexo. Em uma cena fantástica, a bordo de seu iate, o ator mostra o quão tênue pode ser a sensação de vitória e o gosto amargo de uma derrota em um conversa com um oficial do FBI.



Carregado de palavrões em seus diálogos, o roteiro é bem sucedido em envolver o espectador, usando do artifício da narração em off, que por vezes é assumida pelo protagonista em uma conversa direta com o público, olhando nos olhos da platéia. Até nós, ali sentados, somos tratados com ironia e desprezo pelo personagem, que se vê acima de tudo e todos. Cenas como a do corte de cabelo de uma secretária e a de um 'esporte' envolvendo anões embrulham o estômago e a humilhação por que esses passam torna-se alheia rapidamente, constrangendo a todos.

Dessa forma, com escolhas acertadas e enfoques que passeiam entre o intimista e o escrachado, Scorsese desenvolve uma trama fazendo uso da comicidade que provoca o riso não pelo engraçado, mas pelo desprezo que passamos a sentir com relação a alguns personagens. O elenco também demonstra o dedo de ouro do diretor, que coloca Jonah Hill e seu jeito cômico em favor de seu personagem e a bela Margot Robbie que flerta com - mas nunca se entrega ao - clichê das personagens femininas em um filme de máfia. Vale citar também Matthew McConaughey, que em uma cena brilhante (estilo mestre-discípulo) coloca seu personagem como um dos mais marcantes da película.


Difícil terminar o longa indiferente a tudo o que se passa. É uma sensação de mãos atadas que dificilmente será esquecida. E Scorsese entende isso e nos brinda com uma impactante metáfora através de um close-up em uma criança. Está tudo na tela. Esperando pelo seu julgamento.


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O forte "A Caça" na disputa do Oscar


Sempre muito difícil prever os vencedores ao Oscar de melhor filme estrangeiro, e neste ano os filmes são particularmente distintos. Mas um deles pode estar correndo na frente, se considerarmos ao menos sua campanha desde o lançamento no Festival de Cannes em 2012 (que usualmente exibe filmes com muitos meses de antecedência). Se trata do dinamarquês "A Caça" de Thomas Vintenberg, que ficou conhecido em 1998 por "Festa de Família", que fazia parte do movimento cinematográfico Dogma 95.


O filme nos apresenta um solitário professor de jardim de infância, que tem nas reuniões com amigos pais de família os únicos momentos de lazer, e algum problema relacionado a custódia do filho, mas que terá a vida transformada num pesadelo quando uma inocente mentira o envolve num suposto crime de pedofilia, o transformando no homem mais odiado da cidade.
Klara e a diretora da escola sob pressão

Estrelado por Mad Mikkelsen ("Depois do Casamento", "Rei Arthur", "Casino Royale"), o filme tem um roteiro que começa bastante ameno, com uma certa economia de reações dos personagens, que são exponencialmente potencializadas, criando uma extrema sensação de desconforto e injustiça. Mais do que manter um proposital e bem elaborado ambiente hostil, o filme conta com atuações justas principalmente do protagonista, da menina Annika Wedderkopp que faz a Klara, e Susse Wold que vive a confusa diretora da escola, e uma bela fotografia que honra o cenário nórdico.

A triste trama lembra muito a história real da família norte-americana Friedman, investigada no documentário indicado ao Oscar "Na Captura dos Friedmans" de 2003, quando no final dos anos 80 um respeitado pai e professor de computação e música e seus três filhos crescidos foram acusados e condenados por abusar sexualmente das crianças que ensinavam. Assim como no filme, a consequência da imaginação das crianças combinada com perguntas tendenciosas têm resultados profundos. Mas nunca anulando a existência de tais crimes que, de fato, assombram a sociedade.
A sociedade é cruel

Pra ajudar o filme na disputa pelo Oscar, mesmo depois de ter perdido o Globo de Ouro pro badalado italiano (e  quase instalação-homenagem) "A Grande Beleza" e sem os poderosos franceses "Azul é a Cor Mais Quente" e "Um Estranho no Lago" no páreo, o filme, que já ganhou 18 prêmios ao redor do mundo, acaba de vencer 7 categorias do Robert Festival, o Oscar do cinema dinamarquês. O filme foi exibido no Brasil pela primeira vez em 2012 na Mostra de São Paulo, estreando no circuito de arte em março de 2013, e atualmente é exibido pelo canal Telecine.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O Brasil na disputa pelo Urso de Ouro 2014


O filme "Praia do Futuro" do diretor cearense Karim Ainouz foi selecionado para a competição oficial no Festival de Berlim, que acontece em fevereiro.
No filme estrelado por Wagner Moura, acompanhamos Donato, um salva-vidas na Praia do Futuro em Fortaleza, que após um salvamento fracassado se aproxima do amigo alemão da vítima, e resolve abandonar a família pra recomeçar a vida em Berlim. Anos mais tarde, seu irmão mais novo (vivido pelo arroz de festa Jesuíta Barbosa, que segundo Moura durante o ultimo Festival de Gramado é tão talentoso e jovem que "desse eu não tenho raiva, tenho vontade de matar mesmo, com uma paulada na cabeça") procura saber o que houve com o irmão que idolatrava.

Diretor (ao centro) e atores


Não é muito possível prever as chances do filme, mas vale lembrar que o Brasil já ganhou dois prêmios máximos (em 1998 com "Central do Brasil, e 10 anos depois com o polêmico "Tropa de Elite"), e neste ano não disputam aguardados longas que serão apenas exibidos como "Caçadores de Obras Primas" de George Clooney, "Grande Hotel Budapeste" com um gigantesco elenco estelar sob a batuta de grife de Wes Anderson e "A Bela e a Fera" do francês Christophe Gans com a arroz de festa francesa Lea Seydoux (de "Azul é a Cor Mais Quente") e Vincent Cassel.
"Praia do Futuro", que está há dois anos em produção, deve estrear no Brasil em maio. 



sábado, 4 de fevereiro de 2012

O que é "Chronicle / Poder Sem Limites"?

Estreou nesta sexta-feira 3 de fevereiro nos EUA o filme "Poder Sem Limites" (Chronicle, 2012) distribuído pela Fox. O filme é do gênero "câmera documental" que se mostrou um bom chamariz de público (e até crítica) principalmente desde o independente "A Bruxa de Blair" de 1999, que custou 60 mil dólares e lucrou cerca de 250 milhões no mundo todo. Desde então o cinema busca contar uma história por esta câmera subjetiva, como o terror espanhol "REC" de 2007, que rendeu um remake americano; "Cloverfield - O Monstro" de 2008, e o filme independente que resultou na franquia "Atividade Paranormal" de 2007, que custou apenas 15 mil dólares e lucrou cerca de 200 milhões no mundo todo quando lançado em circuito comercial em 2009.

Pouco se sabia sobre "Poder Sem Limites", que teve um trailer bastante comentado que mostra 3 amigos que têm super poderes, e ficam filmando suas brincadeiras, mas que também revela um conflito violento cheio de efeitos especiais. A trama acompanha Andrew, um garoto com problemas em casa e na escola que compra uma câmera filmadora e decide filmar tudo, e que junto com mais dois amigos, após sair de uma festa e encontrarem um buraco com algo estranho, adquirem poderosas habilidades sobre-humanas. Andrew então usa seus poderes para conseguir a tão desejada popularidade na escola, mas as coisas começam a ficar descontroladas, e por fim erradas para ele, e revoltado resulta numa descontrolada batalha contra seus amigos e, ao que parece, a sociedade.

os 3 amigos nem tão super assim
Alguém aí lembrou de "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades" do Tio Ben pro Peter "Homem Aranha" Parker? Pois acho que sim, o filme terá este elemento, mas se aproximará muito mais de outro ícone, "Akira", o definitivo longa de animação japonês que ajudou a definir conceitos de ficção científica e universo cyberpunk que filmes como "Matrix" e muitos animes utilizaram. A trama de "Akira", que vai virar uma superprodução hollywoodiana produzida por Leonardo DiCaprio em 2013, fala sobre um rebelde sequestrado por um orgão de paranormalidade do governo que faz experimentos com crianças prodígio, que após desenvolver super poderes, enlouquece e se torna uma ameaça global, do qual seu melhor amigo tentará conter. O trailer de "Poder Sem Limites" mostra Andrew descontrolado e com cara de mau, e uma garota gritando desesperada o nome do protagonista, assim como o nome Kaneda é gritado em vários momentos de "Akira".

Enquanto escrevia este post, encontrei uma entrevista que o diretor deu para o site Bloody Disgunting, assumindo a influência, e dizendo ser um grande fã do longa japonês. Infelizmente o vídeo está em inglês, mas a parte que fala de "Akira" é a parte final da entrevista, após ele dizer que não queria um filme de jovens triviais.


Esperamos que um filme interessante desse faça sucesso, e teremos alguns números das bilheterias americanas e canadenses já na segunda-feira, mas o brasileiros só poderão curtir o filme no dia 9 de março. Enquanto isso fique com o interessante trailer!

domingo, 15 de janeiro de 2012

Direto da Telona: A Hora da Escuridão

Filmes de sobrevivência em grupo tendem a ser problemáticos quando se apoiam demais em seus personagens, que geralmente são bastante estereotipados em um mesmo padrão de comportamento. Sem contar o fator de eliminação desses personagens, que pouco surpreende o público. E quando o perigo iminente é invisível, imaginário ou desconhecido, as coisas tendem a ficar ainda piores, e a rejeição do público é quase imediata.

Produzido por Timur Bekmambetov de O Procurado, "A Hora da Escuridão" (The Darkest Hour, 2011) é um filme de sobrevivência em grupo onde o inimigo é praticamente invisível. Ou seja, altamente problemático. No filme, dois amigos (os sempre ótimos Emile Hirsch e Max Minghella, respectivamente de Na Natureza Selvagem e Ágora) sócio-fundadores num site de relacionamento por geolocalização vão para Moscou tentar ganhar investidores numa clara alusão ao filme A Rede Social (onde um está preocupado com os negócios, e o outro parece só querer curtir). No retrato que o filme faz de uma Rússia em crescimento econômico à qualquer custo, os amigos são enganados por um executivo sueco que trabalha no país. Num bar, encontram duas turistas americanas (Olivia Thirlby e Rachael Taylor, respectivamente de Juno Transformers), e então após um apagão eletroeletrônico estranhas bolhas de luz invadem Moscou (e todo o planeta), e ao ficarem invisíveis se revelam incineradoras de seres vivos, e em conclusão um inevitável ataque alienígena. A única coisa que resta para eles é descobrir como identificar a presença dos seres, e se esconder.
arte conceitual oficial feita pelo brasileiro da HQ ˜Vampiro Americano"

O público sabe que não há pra onde fugir, apesar dos personagens buscarem este lugar, mas que em algum lugar alguém está se abrigando em segurança, e que será pra essa direção que o filme irá. O filme também erra ao dar poucos motivos pra gostar (ou não) dos personagens, ignorando desde o princípio o passado deles. Chega a incomodar quando um dos personagens fala emocionado sobre a infância (que nos era desconhecido)com alguém que acaba de morrer, pelo qual o público teve no máximo alguma empatia por conta de seu intérprete. Muito se disse sobre jovens atores talentosos terem aceitado o projeto, mas deve-se levar em conta que todos precisam de um arrasa-quarteirãol, e a idéia de uma invasão alienígena invisível poderia render um bom filme.

Eu pessoalmente me interesso por filmes com inimigos invisíveis, como eu já deixei claro com Fim dos Tempos aqui. Eles poderiam sempre render tensas cenas de suspense, mas infelizmente eles geralmente erram por ser apenas uma contenção de despesa quando com efeitos visuais. O diretor Chris Gorak, geralmente afeito aos bastidores de grandes produções erra feio nessa economia de orçamento em todas as cenas (com cortes e fechamentos de cenas bem amadores), principalmente nas rápidas sequências de suspense, e nem mesmo consegue sustentar o título A Hora da Escuridão, já que o contraste entre luz e sombra do filme é nulo, e todas as principais cenas acontecem à luz do Sol. Nem mesmo o 3D ajuda, e só vale pela última tomada, com nuvens sob a cidade.

Só nos resta mesmo contemplar esta curiosa Moscou capitalista em meio ao caos do fim do mundo.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Direto da Telona: RANGO


Nos dias de hoje, com internet e tantos outros meios de divulgação, o excesso de publicidade pode acarretar tanta expectativa sobre alguns filmes que a sensação ao assistí-los, mesmo quando esses possuem qualidades, é de que estamos diante de algo morno que foi vendido como quente. Felizmente esse não é o caso de RANGO (Rango, 2011), animação de Gore Verbinski.

Basicamente o filme gira em torno de um camaleão "de aquário" (?) que é catapultado para fora do carro de seus donos no meio de uma viagem dos mesmos. Acaba por cair em uma cidade de velho oeste chamada Dirt que procura por um novo xerife. Usando seus "dotes" artísticos como ator, o camaleão se transforma em Rango e assume o posto, vendendo ser o homem da lei durão que a cidade precisa, mas que ele não é.

A apuração técnica do filme é primorosa. A forma como animais e ambientes são retratados impressiona. Fiquei especialmente deliciado com as cenas em que o diretor se utiliza de efeitos através de vidros e superfícies transparentes. Garrafas, janelas, sempre usados de forma a gerar efeitos legais na tela do cinema. O design dos animais, alguns incomuns à animações, também denota grande esmero por parte da produção. Entretanto, considerando os padrões atuais de computação gráfica, uma animação precisa mais do que beleza técnica para se sobressair. E nesse quesito, Rango também triunfa.


Com um roteiro bem costurado e desenvolvido, nos deparamos com uma metáfora bem interessante. Estamos diante de um camaleão, animal conhecido pelo seu mimetismo (capacidade de se confundir com o ambiente em que se encontra) que precisa se adapatar a uma nova vida. Deixa de ser o animal de estimação para se tornar um animal "real". Contudo, para isso se "camufla" novamente, vestindo a carapuça de xerife, que não lhe pertence. A realidade é hostil e ele precisa aprender a lidar com ela.


Assisti à versão dublada (por sinal, muito boa), mas sei que o dublador de Rango no original é Johnny Depp. Lembrar que ele e o diretor já trabalharam juntos na trilogia Piratas do Caribe me fez fazer uma correlação engraçada: os trejeitos do camaleão, por muitas vezes remeteram ao velho e bom Capitão Jack Sparrow. Até o seu jeito de dizer algumas coisas. Talvez fosse coisa da cabeça de um cinéfilo, mas vi essa semelhança. Ainda sobre a dublagem, o tom de faroeste foi bem desenvolvido, com sotaques deliciosos por parte dos moradores de Dirt.

Falando em faroeste, a homenagem ao gênero é evidente e muito bem delineada por Verbinski e seus animadores. Há inclusive uma aparição do "Espírito do Oeste" que é a cara de Clint Eastwood, conhecido por suas atuações em filmes desse gênero.

E não posso terminar esse post sem falar da primorosa trilha sonora deste filme, brincando com clássicos do cinema o tempo inteiro. É tão boa que chega a arrepiar em alguns momentos, como quando ouvimos A Cavalgada das Valquírias, de Wagner, em uma cena totalmente Apocalipse Now. Sem falar nas corujas-cantoras, hilárias.


Ótima animação, não perca a oportunidade de conferir nos cinemas!


Em tempo, o nosso companheiro de Liga Homem dos Dados notou outra referência interessante: logo no início do filme é feita uma alusão escancarada ao filme Medo e Delírio de Terry Gilliam sobre o pai do jornalismo gonzo Hunter S. Thompson, estrelado por Benicio DelToro e Johnny Depp, que também narrou o documentário Gonzo: The life and work of Dr. Hunter S. Thompson, que conta essa história do repórter ícone da contracultura americana, que se suicidou em 2005.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Direto da Telona: Bravura Indômita

Hollywood, assim como a televisão, vira a mexe se mete a fazer remakes. Sejam eles cópias descaradas dos originais, reinvenções ou apenas baseados nos materiais que originaram alguma adaptação pra cinema. Este Bravura Indômita (True Grit, 2011) se enquadra mais na última categoria.

Os diretores Joel e Ethan Coen leram o livro que Charles Portis publicou em 1968, e como buscavam um filme realmente western para filmar, viram que aquela história seria perfeita, e somente depois se deram conta que aquela história tinha virado o famoso filme que deu o Oscar de melhor ator para John Wayne e seu tapa-olho. Mas já era tarde demais para escolher outra história, e mesmo porquê o filme de 1969, apesar do Oscar de melhor ator, sempre foi muito criticado pelo excesso de caricaturas.

Mattie e LaBeouf num momento tenso
A história gira em torno da menina de 14 anos Mattie Ross (a revelação indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, apesar dela ser a protagonista, Hailee Steinfeld), que acaba de perder o pai assassinado pelo frio e complexado Tom Chaney (um surpreendente Josh Brolin). Como sua frágil mãe não tem forças para lutar por justiça, e ela é a filha mais velha, ela parte em busca de alguém que leve Chaney à forca, já que o xerife não pode intervir em território indígena (para onde ele fugiu). É quando ela conhece o caçador de recompensas Rooster Cogburn (Jeff Bridges brilhando como sempre num filme dos Coen), um beberrão que usa tapa-olho e tem fama de ser muito violento, a ponto de não trazer seus prêmios vivos. No encalço dos dois estará o Texas Ranger LaBeouf (Matt Damon em plena forma e sotaque) que também quer capturar Chaney, mas por outros crimes.
A cena do urso é muito "Coen"!

Um dos destaques, além do elenco principal, e do sensacional roteiro que os Coen mantiveram fiel ao livro, é a participação de Barry Pepper (À Espera de Um Milagre) na terceira parte do filme. O ator surpreende de todas as formas, e mostra porque foi considerado um dos melhores (e mais mal aproveitados) atores de sua geração. E os detalhes técnicos saltam da tela desde o primeiro frame, pois a cena inicial é de uma fotografia tão inspirada que poucas vezes vimos no cinemão americano. O que justifica de todas as formas as várias indicações ao Oscar que esta refilmagem recebeu.

O duelo final é covarde?
Quando disse há pouco que este western refilmado faz parte do cinemão estadunidense, não é apenas por ser um filme americano sobre uma história bem americana. Bravura Indômita é o primeiro filme (digamos assim) autoral dos independentes Irmãos Coen  a ter um orçamento superior a 30 milhões de dólares, e que ao mesmo tempo tenha sido uma encomenda de um grande estúdio e produzido por ninguém mais ninguém menos que Steven Spielberg. Talvez isso explique o quão homogêneo o filme ficou, pois os diretores são acostumados a subverter os gêneros em que pisam, como o fizeram no próprio Onde os Fracos Não Têm Vez e até na comédia romântica O Amor Custa Caro, que tinha como "carro-chefe" a presença dos astros George Clooney e Catherine Zeta-Jones e não seus diretores. Não que ser homogêneo cinematograficamente seja ruim, mas muita gente achou que para ser um filme dos Coen, este Bravura Indômita ficou meio Disney, mesmo com duas ou três cenas que você jamais verá num outro western que não seja o deles.

Mas como disse no começo do texto, os diretores queriam fazer um legítimo western, e conseguiram!!



terça-feira, 8 de março de 2011

Direto da Telona: Gnomeu & Julieta

Um atirador feriu 19 pessoas, matando 6 delas no estacionamento de um supermercado em Tucson, Arizona, nos EUA no dia 8 de janeiro de 2011 por razões políticas envolvendo a atual briga entre as alas democrata e republicana. Lá estava acontecendo uma reunião aberta que a congressista democrata Gabrielle Giffords liderava com seu eleitorado, e onde provavelmente se discutia o fato do "tea party" da ex-quase-vice-presidente Sara Palin ter colocado a região na mira dos republicanos ultra-direitistas. Entre as vítimas fatais estava uma menina de apenas 9 anos que nasceu no dia 11 de setembro de 2001 e tinha muitas aspirações esportivas e políticas. Ela estava lá para discutir e colaborar para um mundo melhor.

O presidente Barack Obama falou no memorial das vítimas desse tiroteio no dia 13 de janeiro em especial sobre esta garotinha, e sobre a bondade que ainda existe nas pessoas, mas que são mascaradas por questões políticas e disputas de poder. E de uma maneira singela ele nos pede a refletir se esta garotinha deva viver num mundo que os adultos criaram, ou se somos nós os adultos quem devem viver num mundo idealizado por ela. Provavelmente um mundo melhor.

"A flor do Cupido", menção a "Sonhos de uma noite de verão" 
O discurso do presidente americano não tem nada a ver com o filme Gnomeu & Julieta, nem o filme tem a ver com seu discurso, pois eles dividem a mesma questão apenas por coincidência. Uma feliz coincidência, que faz deste longa animado dirigido pelo diretor de Spirit - O Corcel IndomávelShrek 2 o primeiro grande sucesso do ano. Não que o filme seja um arroubo de cinema!

menção a "Hamlet": To Be or Not To Be
O filme, que começou a ser produzido há 11 anos, usa a mesma história escrita há séculos por William Shakespeare (que alíás aparece no filme), sobre um rapaz e uma moça que se apaixonam, mas são de famílias rivais. No filme o Romeu e Julieta (vozes de James McAvoy e Emily Blunt no original) são anões de jardim feitos de porcelana que ganham vida longe dos humanos, e pertencem a famílias rivais há várias gerações, respectivamente os azuis (do jardim do Sr. Capuleto) e os vermelhos (do jardim da Sra. Montecchio). Julieta vive numa torre ao lado de sua ama, uma sapa que esguicha água pela boca, mas é superprotegida por seu pai e todos do jardim. Romeu é o orgulho de sua mãe, e como um guerreiro para todos no jardim. A briga das duas comunidades é pela beleza de seus jardins, e sempre há uma corrida de cortadores de grama para aumentar a rivalidade.

Elton John em versão anão de jardim
O belo filme usa o 3D tão bem quanto possível (e um dos indícios é que não dá para assistir ao filme sem os óculos), e traz imagens diurnas e noturnas bastante inspiradas, e detalhes interessantes na composição dos frágeis personagens pintados na porcelana. Romeu tem uma pintura mais rústica, e Julieta tem traços bem delineados. No filme de Baz Luhrmann com Leonardo DiCaprio e Claire Danes, os dois se conhecem divididos por um aquário, e neste longa animado eles se descobrem rivais literalmente na água.

Mas o que chama a atenção é ter o cantor Elton John trabalhando num longa de uma forma integral. Ele assina a trilha sonora e a produção executiva, desde o começo do projeto. Bem verdade que ele não fez nada na produção executiva a não ser ser o dono da produtora Rocket Pictures  junto ao seu marido (e este é o terceiro filme deles, mas o primeiro com grande distribuição), mas ele colaborou com a trilha sonora. A trilha assinada por James Newton Howard e Chris Bacon acabou usando quase que em totalidade as canções de Elton John instrumentalmente, mas também há duas músicas inéditas, além daquelas cantadas e tocadas no filme, que é "Crocodile's Rock" em dueto com Nelly Furtado e a excelente "Hello Hello" em dueto com Lady Gaga, que toca nos créditos, mas que não entrou no álbum do filme.

Se o casal romântico morre ao final, como na peça original? Estamos falando de um filme voltado para o público infantil, mas você pode esperar por um final interessante. Pelo menos no filme, aquele discurso do Barack Obama faz algum efeito. E será que precisamos mesmo seguir o que nossos antepassados disseram? Se você acreditar nelas, tudo bem, mas e se você tiver suas próprias convicções?