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quarta-feira, 23 de março de 2011

Direto da Telona: RANGO


Nos dias de hoje, com internet e tantos outros meios de divulgação, o excesso de publicidade pode acarretar tanta expectativa sobre alguns filmes que a sensação ao assistí-los, mesmo quando esses possuem qualidades, é de que estamos diante de algo morno que foi vendido como quente. Felizmente esse não é o caso de RANGO (Rango, 2011), animação de Gore Verbinski.

Basicamente o filme gira em torno de um camaleão "de aquário" (?) que é catapultado para fora do carro de seus donos no meio de uma viagem dos mesmos. Acaba por cair em uma cidade de velho oeste chamada Dirt que procura por um novo xerife. Usando seus "dotes" artísticos como ator, o camaleão se transforma em Rango e assume o posto, vendendo ser o homem da lei durão que a cidade precisa, mas que ele não é.

A apuração técnica do filme é primorosa. A forma como animais e ambientes são retratados impressiona. Fiquei especialmente deliciado com as cenas em que o diretor se utiliza de efeitos através de vidros e superfícies transparentes. Garrafas, janelas, sempre usados de forma a gerar efeitos legais na tela do cinema. O design dos animais, alguns incomuns à animações, também denota grande esmero por parte da produção. Entretanto, considerando os padrões atuais de computação gráfica, uma animação precisa mais do que beleza técnica para se sobressair. E nesse quesito, Rango também triunfa.


Com um roteiro bem costurado e desenvolvido, nos deparamos com uma metáfora bem interessante. Estamos diante de um camaleão, animal conhecido pelo seu mimetismo (capacidade de se confundir com o ambiente em que se encontra) que precisa se adapatar a uma nova vida. Deixa de ser o animal de estimação para se tornar um animal "real". Contudo, para isso se "camufla" novamente, vestindo a carapuça de xerife, que não lhe pertence. A realidade é hostil e ele precisa aprender a lidar com ela.


Assisti à versão dublada (por sinal, muito boa), mas sei que o dublador de Rango no original é Johnny Depp. Lembrar que ele e o diretor já trabalharam juntos na trilogia Piratas do Caribe me fez fazer uma correlação engraçada: os trejeitos do camaleão, por muitas vezes remeteram ao velho e bom Capitão Jack Sparrow. Até o seu jeito de dizer algumas coisas. Talvez fosse coisa da cabeça de um cinéfilo, mas vi essa semelhança. Ainda sobre a dublagem, o tom de faroeste foi bem desenvolvido, com sotaques deliciosos por parte dos moradores de Dirt.

Falando em faroeste, a homenagem ao gênero é evidente e muito bem delineada por Verbinski e seus animadores. Há inclusive uma aparição do "Espírito do Oeste" que é a cara de Clint Eastwood, conhecido por suas atuações em filmes desse gênero.

E não posso terminar esse post sem falar da primorosa trilha sonora deste filme, brincando com clássicos do cinema o tempo inteiro. É tão boa que chega a arrepiar em alguns momentos, como quando ouvimos A Cavalgada das Valquírias, de Wagner, em uma cena totalmente Apocalipse Now. Sem falar nas corujas-cantoras, hilárias.


Ótima animação, não perca a oportunidade de conferir nos cinemas!


Em tempo, o nosso companheiro de Liga Homem dos Dados notou outra referência interessante: logo no início do filme é feita uma alusão escancarada ao filme Medo e Delírio de Terry Gilliam sobre o pai do jornalismo gonzo Hunter S. Thompson, estrelado por Benicio DelToro e Johnny Depp, que também narrou o documentário Gonzo: The life and work of Dr. Hunter S. Thompson, que conta essa história do repórter ícone da contracultura americana, que se suicidou em 2005.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Direto da Telona: O Turista

O filme O Turista é cercado de dúvidas e críticas negativas por todos os lados, e virou alvo de piadas do apresentador da premiação Globo de Ouro deste ano por suas duvidosas indicações a melhor filme, ator e atriz de comédia. Todo mundo ficou na dúvida sobre como classificar o filme, com razão, mas acho que o filme foi muito mal compreendido. Eu diria que o filme é algo como "se um filme do 007 fosse um conto de fadas onde você não sabe quem é James Bond".

O projeto inicial era um remake direto do filme francês Anthony Zimmer - A Caçada de 2005, estrelado pela bela Sophie Marceau (Coração Valente), mas estrelado por Charlize Theron e Tom Cruise sob a direção do indiano pouco expressivo Bharat Nalluri. Charlize Theron viu as complicações do projeto, e pulou fora, levando Cruise pra fora do barco junto, mas chamando a atenção de Angelina Jolie, que procurava um projeto parecido. No meio do caminho o nome de Sam Worthington (Avatar) foi escalado para o papel masculino, mas sem um diretor o filme ficou em suspenso. Foi Jolie quem organizou tudo novamente, ao convidar o diretor alemão Florian Henckel von Donnersmarck, que havia acabado de receber um Oscar de melhor filme estrangeiro pelo seu filme sério A Vida dos Outros. Segundo o diretor foi impossível negar um convite de Angelina. O próximo convidado que não conseguiu dizer não para a atriz foi Johnny Depp, uma vez que ambos queriam trabalhar juntos.

Depp num momento definitivo com
 pombos voando à la John Woo.
O roteiro de Christopher McQuarrie (Os Suspeitos e o vindouro novo Wolverine) foi lapidado por Florian para ficar um pouco mais do jeito que toda a equipe queria, ou seja um thriller de espionagem incomum, uma vez que o gênero foi banalizado por Hollywood com filmes sempre iguais. Não que o resultado tenha sido original, já que usa vários clichês do gênero, mas o tom de descomprometimento o torna uma comédia que parece se levar a sério. A trama começa com Elise (Angelina Jolie) sendo perseguida por agentes secretos, até que ela recebe uma carta em público e descobrimos que ela é a namorada de um cara procurado por "roubar" bilhões e dever outros milhões em impostos, mas que supostamente fez uma cirurgia plástica e está irreconhecível, portanto ela é a única pessoa com acesso a ele. O plano que ele sugere a ela na tal carta inicial é que ela faça com que pensem que um cara qualquer é ele. E é quando ela encontra o Turista vivido por Johnny Depp, e muitas confusões envolvendo um vilão digno de 007 acontecem.

O tom de 007 versão conto de fadas que disse no começo se refere a curiosa e romântica trilha sonora, aos poucos diálogos com ótimas frases de efeito da primeira parte do filme e principalmente a beleza real de Angelina em vestidos de princesa pensados pela genial figurinista Coleen Atwood (que está indicada ao Oscar deste ano por Alice no País das Maravilhas, mas já ganhou duas vezes) e obviamente ao cenário mais que romântico que é Veneza.



Os protagonistas se conhecem no trem
rumo a Veneza.
A verdade é que O Turista foi desde o começo um filme de estrelas, o chamado star system, e o produto final é exatamente um veículo para Angelina Jolie e Johnny Depp continuarem no estrelato. As câmeras dão closes em cima de closes nos atores, exaltando a beleza de Angelina, a cara de Jack Sparrow romântico de Johnny Depp e uma certa canastrice de ambos. Mas enxerguei tudo isso de forma positiva, vendo um diretor que sempre teve dificuldades se divertindo com uma trama mais branda e uma atriz que estava querendo brincar de princesa num gênero desgastado. Todo o material publitário e até mesmo o trailer já indicavam um filme leve sem cenas de ação (há apenas momentos levemente tensos) e com um espetáculo de beleza e simpatia de Angelina, que nós não cansamos de assistir nunca.