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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Direto da Telona: CONTÁGIO


DIA 2.

É assim que começa o filme CONTÁGIO (Contagion - EUA, 2011). Seguem-se alguns minutos de puro cinema: sem fazer uso de diálogos, somente com belos enquadramentos e uma longa sequência de imagens, tomamos contato com a evolução de uma doença, evidenciando aqui a forma como esta se propaga. Uma verdadeira aula para alguns diretores/roteiristas que acham que precisam "mastigar" cada aspecto da película, esquecendo-se de que cinema é imagem.

O roteiro de Scott Z. Burns nos apresenta o avanço de uma epidemia que toma amplitude global. Sim, mais um filme que enfoca catástrofes, mas diferentemente da maioria dos filmes, busca elucidar a reação das pessoas ante o possível "fim dos tempos". Em close-ups muito espirituosos e bem sacados (como a utilização de um retrovisor para mostrar os olhos de determinado personagem frente a uma multidão enfurecida/desesperada) são captadas as emoções, levando-nos a uma experiência extremamente real, algo ressaltado pelo caratér documental de alguns momentos e pela fotografia quente, passando uma sensação abafada e desagradável.

O diretor Steven Soderbergh, aliado a uma ótima montagem (Stephen Mirrione) e uma bela trilha sonora (Cliff Martinez), cria um ritmo de urgência, conseguindo unir bem todas as linhas narrativas, muito bem representadas por um elenco de primeira (Matt Damon, Marion Coitllard, Lawrence Fishburne, Kate Winslet, entre outros). Não são necessárias muitas explicações sobre as vidas de cada um, mas sim o que os une nesse momento. Novamente, sem necessitar de muitos diálogos, o uso de imagens transporta para a telona quem são cada um dos personagens.

CONTÁGIO também traz à tona algumas discussões interessantes, como o uso da internet como fonte disseminadora de informação e a ética envolvida nisso. Ética também é lembrada quando se faz necessário decidir o momento certo de divulgar informações para a população. Enfim, vemos mais uma vez como as situações podem modificar as pessoas. E aí, as emoções começam efetivamente a aflorar.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

PLANETA DOS MACACOS: A ORIGEM


Quando, em 1963, o autor francês Pierre Boulle lançou o seu "Planeta dos Macacos", livro em que criticava a sociedade européia de forma disfarçada, os tempos eram outros. Enquanto os livros de hoje muitas vezes já são lançados com contratos prevendo a transposição para as telas dos cinemas, os de antigamente só eram içados a tal patamar quando alcançavam efetivamente sucesso no ramo literário. E esse foi o caso da história onde os símios eram a raça dominante de um planeta, que foi transposta cinco anos depois com Charlton Heston liderando o elenco.

Dirigido por Franklin Shaffner, o filme foi recebido pela crítica como um discurso sobre a Guerra Fria, que ocorria entre as potências do momento. O filme tornou-se clássico ao longo dos tempos, angariando um séquito digno de Star Wars ou Star Trek. Não assisti ao original, muito menos as suas continuações. Tudo o que conhecia provinha de leituras sobre cinema até 2001, quando Tim Burton decidiu fazer o remake do primeiro filme. E não foi tão feliz...

A história era basicamente a mesma, os efeitos eram melhores, entretanto o roteiro falhava em inserir os espectadores no ambiente da história. É óbvio que o cenário é bem ficcional, mas ainda assim quando estamos no cinema esperamos que o filme nos leve a passear e conhecer um novo universo, e não me senti efetivamente inserido naquele mundo onde os macacos dominavam. Dessa forma, quando o prequel foi anunciado, a falta de publicidade não me incomodou. Esse seria um filme que assistiria em um dia em que sobrasse um tempo. E que bom ter tido pouca informação: a experiência tornou-se muito mais interessante!

PLANETA DOS MACACOS - A ORIGEM (Rise of the Planet of the Apes, 2011) nos apresenta à empresa GEN-SYS, onde os cientistas fazem ciência e os acionistas fazem dinheiro! Will Rodman (James Franco) busca incessantemente a cura para o Mal de Alzheimer, que aflige seu pai (John Lithgow, numa atuação no tom certo). Após um acidente no laboratório, Will leva para casa um filhote, César, que começa a demonstrar uma capacidade cognitiva que se desenvolve de forma surpreendente. O jovem cientista vê no pequeno macaco a possível salvação para o seu pai.


O roteiro, ao trazer os macacos para o "nosso" planeta, nos aproxima da história. Além disso, a busca por uma cura que todos desejamos na atualidade (e que vemos cada vez mais possível, através de alguns avanços da tecnologia de hoje) alcança sucesso onde o filme de Tim Burton falhou: a imersão ocorre de forma orgânica e evolui de forma harmoniosa.

O show promovido pela Weta Digital e pelo ator Andy Serkys se desenrola brilhantemente na tela. Aliás, não só César (Serkys), mas todos os símios são críveis. É uma contenda interessante: nosso senso nos diz que aquilo é inviável, mas nossa porção crível quer aceitar, a cada instante, que aquela "Revolução da Macacada" está realmente se formando. E, aqueles que conhecem a história do filme original, já esperam por um final anunciado.


Franco (que para mim não possuí uma presença de tela muito efetiva) atua de forma consistente e até mesmo os coadjuvantes de luxo Brian Cox e Tom Felton acrescentam de forma simples algo mais ao enredo que, sem dúvida nenhuma se centra em César. Sem diálogos (somente com uma pequena cena de "linguagem dos sinais", rs) os realizadores (direção de Rupert Wyatt e roteiro de Rick Jaffa e Amanda Silver) conseguem imprimir o tom de cada acontecimento dentro do centro de controle de animais a contento. As cenas de ação envolvendo os macacos também são vibrantes. A batalha na ponte Golden Gate é empolgante e arrojada, mostrando uma organização militar do símio típica do antigo imperador romano, que lhe empresta o nome.

A película possui alguns pequenos deslizes de roteiro (como uma personagem símia que, aparentemente, acabou cortada da versão final, mas que sobreviveu em algumas cenas), mas nada que incomode. A cena supracitada com a utilização da linguagem dos sinais é compreensível do ponto de vista do roteiro, mas estraga um pouco aquela característica crível de que falei.


Existem diversas citações (ou Easter eggs) inseridos ao longo do filme, mas confesso que não os percebi por completo por não ter assistido ao original ou ter lido o livro. Mas deve ser divertido, para os iniciados na saga, notar esses detalhes.

O filme diverte e, mesmo apostando em alguns clichês, consegue surpreender. Os créditos finais são excepcionais e guardam uma pequena cena que completa a obra de forma coerente, ligando-a de forma efetiva aos demais filmes e abrindo as portas para uma possível sequência. Sem falar que, ao melhor estilo Star Trek, reinventa de certa forma um universo que pode prosperar ainda.

Ótimo entretenimento, esse filme tem sido muito elogiado ao redor do mundo. E por puro merecimento. Como já se dizia antigamente, a César o que é de César...


quinta-feira, 28 de julho de 2011

SUCKER PUNCH - Mundo Surreal


SUCKER PUNCH - MUNDO SURREAL é mais do que um filme. Assistir ao mesmo pode ser encarado como uma experiência selvagem e maravilhosa. Temos um épico de ação/fantasia em que um grupo de mulheres vestindo uniformes apertados batalham contra um sem número de inimigos. O objetivo: sua liberdade! O mais interessante: essa liberdade é abordada de forma metafórica e ressoa como uma clareza de pensamento.

Zack Snyder, conhecido por seu trabalho em 300 e Watchmen, cria uma história carregada com o estilo de HQ. A energia e a sexualidade irrompem de cada uma das cenas muito bem coreografadas. A fantasia do filme salta aos olhos, mas serve tão e somente para aliviar um conto com contornos e tema pesados.

Baby Doll (Emily Browning) sofre muito logo nos créditos iniciais, onde é confrontada com a morte de um ente querido e a ação violenta de um padrasto sem escrúpulos. Sua tentativa de proteger a irmã acaba sendo ineficaz e ela acaba em uma espécie de manicômio judiciário. O vilão paga uma soma em dinheiro para que a menina seja o mais rápido possível lobotomizada e não possa, assim, contar o seu lado da história.

A partir deste momento somos apresentados a suas companheiras de instituto (cada uma representando caracterísitcas próprias do universo feminino) e passamos a viajar pela mente de Baby Doll. A intenção é mais do que clara, por parte de quase todas as meninas: escapar dessa prisão... ou será escapar de suas próprias mentes e do que as maculou a tal ponto de levá-las àquele local?

Confesso que a proposta da mente como uma prisão física e a possibilidade de mascarar "as pedras" no caminho como algo aterrador somente para criar maior motivação realmente me capturaram. Fabricar uma história que possa explicar e justificar os seus atos confere ao agente uma paz de espírito. É óbvio que, em um filme como esse, as cenas de ação são o carro chefe e elas estão lá, mas essa profundidade do roteiro pode surtir efeito e divertir aos que gostaram de A ORIGEM ou MATRIX, filmes que brincam com essa temática, cada um com a sua própria abordagem original. A bela sacada da terapeuta da instituição utilizar terapia teatral com as internas é de uma metalinguagem quase lírica.

Do ponto de vista técnico Snyder demonstra que suas experiências anteriores o fizeram aprender bastante. São cenas de tirar o fôlego, com um dos melhores usos do cinema atual para o slow-motion, coisa que ele já havia atingido em 300. O visual steampunk, onde avanços tecnológicos estão à frente do momento em que a história se passa é evidente. As atuações são boas, no tom certo. A temática transparece de forma arrebatadora nos olhos de Browning, principalmente na cena final.

O filme chega aos DVDs/Blu-Rays agora em agosto e pude assísti-lo um pouco antes graças aos meus amigos de LIGA, recém retornados dos EUA. Recomendo aos que gostaram do que viram nos filmes anteriores do diretor. Aos que não tiveram essa experiência, se arrisquem.

Recentemente, quando assisti ao último Harry Potter, uma frase ficou em minha mente. Dumbledore vira para Harry e diz algo do tipo: "Só porque está na sua mente, não quer dizer que não seja real". Eu acho que essa seria uma boa frase para estampar os cartazes de SUCKER PUNCH na sua divulgação. O surreal do título em português é, na verdade, relativo. Ou, como alguns falam do frio, é psicológico.