terça-feira, 24 de janeiro de 2012

The Normal Heart & a História da AIDS

Quando a crise da AIDS começou no fim dos anos 70, e começou a preocupar politicamente no começo dos anos 80, achavam que era uma epidemia apenas entre homens homossexuais. A comunidade médica sabia que poderia piorar, mas além de não terem tido "pulso firme", precisavam lidar com o preconceito. Alguns dizem que a doença apareceu no final do século XIX, outros que ela apareceu na década de 20, alguns dizem que foi fruto de experimentos, outros que foi castigo de Deus, alguns de que foi o cruzamento entre homens e macacos (este cientificamente mais provável), só se sabe que ela é original do centro-oeste africano, mas apesar de diagnosticado o vírus HIV no começo de 1980, só foi "catalogado" pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA em 1981, quando dezenas de homens gays morriam de uma fortíssima pneumonia em metrópoles como Nova Iorque. Os governos foram negligentes, e não tomaram nenhuma medida pra que a epidemia se espalhasse pelo mundo.

A comunidade gay e, porquê não, artística estavam atentas ao problema que os governantes dos EUA ignoravam. E sem espaço nos meios de comunicação em massa, eles voltaram no tempo, e usaram o que os gregos inventaram e usavam lá na antiguidade pra se comunicar com as massas: os palcos. Em 1982 já haviam alguns pequenos espetáculos que mal foram documentados, mas foi com a estréia de duas peças em Nova Iorque em 1985 que o mundo começou a questionar a política de controle à AIDS, e ver o sentimento naqueles que a maioria negligenciava. "As Is" de William Hoffman mostrava como a doença afetava as pessoas, e "The Normal Heart" de Tony Kushner veio na esteira mostrando isso tudo e alfinetando o prefeito de Nova Iorque Ed Koch, o jornal The New York Times por falhar em divulgar informações sobre a doença, o governo e todo o preconceito em torno da praga.

O que fez o discurso de "The Normal Heart" mais poderoso que o de "As Is" foi o caráter autobiográfico que Tony Kushner deu a sua obra. Ele é o personagem principal Ned Weeks, e ao viver tudo o que a peça mostra, viu nos palcos uma maneira de dar voz ao grito que ninguém queria escutar. E é exatamente esta a sensação que o público tem ao sair do teatro, de ter ouvido um merecido e racionalmente emotivo grito.

o elenco da peça
Quando fui pra Nova Iorque e escolhi os espetáculos que assistiria, usei o critério da variedade e principalmente preço, porque não ia dar pra assistir tudo o que queria ao preço de ao menos 70 dólares cada. Como não queria ficar restrito aos musicais, "The Normal Heart" me chamou a atenção por ser uma peça dramática e ainda ter o ator Jim Parsons, o Sheldon da série cômica "The Big Bang Theory" no elenco. Eu não tinha idéia!... Depois de 294 apresentações de 1985, a peça foi encenada em outras cidades e em Londres, e foi remontada em 2004, mas sempre no circuito off-Broadway (e ainda existe o off-off-Broadway!). Em 2011 ela foi remontada no circuito da Broadway pra uma curtíssima temporada, e eu dei sorte. No elenco desta montagem estavam o incrível Joe Mantello (um dos atores originais da peça dupla que também fala da crise da AIDS e originou a minissérie da HBO "Angels in America", e diretor original do musical-sensação "Wicked"), John Benjamin Hickey (o irmão da protagonista da série "The Big C", e ganhador do Tony - Oscar da Broadway - pelo papel), Ellen Barkin (que também ganhou um Tony pelo papel), Jim Parsons, Lee Pace (protagonista da finada série "Pushing Daisies") e outros.

Os nomes ao fundo do palco são dos primeiros mortos
Na peça, Ned Weeks é um escritor-ativista gay judeu-americano que foi chamado pela médica cadeirante Dra. Emma Brookner pra falar sobre uma misteriosa doença que ao longo da peça matou 45 homossexuais. Ela parece ser a única médica de Nova Iorque a atender esses homens, e a única a compreender o comportamento do vírus e sua ação endêmica. Ela é categórica ao dizer para o escritor "Você precisa falar para os gays que eles não podem continuar fazendo sexo˜, o que causa risos do protagonista e da platéia. O que ela quer é que Ned se torne um ativista deste problema, e o destino vai cercar ele deste problema. Nessa jornada pra fundar uma organização que informe a sociedade, e ajude os infectados, ele entra em atrito com seu homofóbico irmão mais velho que poderia lhe ajudar, com um ativista de caráter menos agressivo porém duvidoso que tenta lhe ajudar, e com a prefeitura de Nova Iorque que cria diversos obstáculos pra obtenção de apoio. E talvez dando origem ao título, se apaixona pela primeira vez. Talvez seu feroz coração tenha ficado normal?

A Doutora
O sucesso da peça gerou o óbvio caminho do cinema, mas obras como "Angels in America" de 1993 foram adaptados muito antes. A atriz Barbra Streisand comprou os direitos da peça logo que assistiu em 1985, mas nunca conseguiu tirar do projeto, e então 10 anos depois devolveu os direitos para Tony Kushner. Durante a remontagem da peça ano passado, ele chegou a dizer para uma revista que a culpa da peça ainda não ter virado filme era dela. Anúncio este que fez a atriz postar em seu site oficial uma carta sobre o assunto, dizendo que Kushner exigiu que o roteiro que ele havia escrito não fosse retocado, o que segundo ela nenhum estúdio aceitou, e que a declaração dele de que ela havia feito um roteiro onde a Doutora era a protagonista em detrimento dos personagens gays para que ela estrelasse e dirigisse não procedia já que ela já havia oferecido o papel para Julia Roberts. Na carta, Barbra lembra que admira profundamente o trabalho de Kushner, que não tem ressentimentos, e que ao se entristecer por não ter levado o projeto pra frente espera e deseja que o filme seja feito, pelo bem de sua mensagem.

O elenco do filme, e o diretor no centro inferior
De qualquer forma o trabalho de sondagem de Barbra deu resultados positivos, pois parte do elenco que ela havia procurado irá de fato fazer o filme. Ryan Murphy, notório criador de séries com militância gay como "Popular", "Nip/Tuck", "Glee" e "American Horror Story", e diretor de "Comer, Rezar, Amar" será o diretor, mas ainda não se sabe se o roteiro será nos termos de Kramer ou se o estúdio fará alterações. A produção fica por conta da Plan B de Brad Pitt, e no elenco principal terá Mark Ruffalo (o Hulk de "Vingadores") como Ned, Julia Roberts como a Dra. Emma Brookner (e única personagem feminina), Matt Bomer (da série "White Collar") como o namorado de Ned, Alec Baldwin como o irmão homofóbico e Jim Parsons reprisando seu papel de um inocente ativista gay do sul na peça.

Vai ser de cortar corações, mas PELAMORDEDEUS sempre usem camisinha. AIDS é uma praga mundial que QUALQUER um está passível de contrair. E já que os governos não fizeram nada lá atrás, quando só haviam dezenas de mortos, fazemos a contenção agora.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Comentários sobre a (Pré-)estreia de ALCATRAZ


Agora sim, após o pontapé inicial da série, podemos tecer alguns comentários sobre o novo LOST. E a primeira constatação é a de que ele NÃO é um novo LOST. Aliás, acho que será difícil alguma série conseguir o que o piloto de LOST conseguiu. Naquele, tínhamos mistérios que aguçaram a mente dos espectadores (monstro na floresta? um urso polar em uma ilha tropical?) de forma nunca antes vista, criando todo o hype na internet. Sendo assim, é complicado - e até injusto - fazer essa comparação a cada nova série que é lançada.

ALCATRAZ, partindo do mote comentado no post de ontem, nos apresenta no primeiro episódio a Jack Sylvane que, após roubar um mercado, é preso e acorda nos dias atuais, em meio a uma visita de turistas à lendária prisão. Sem titubear ele foge da ilha, determinado a se vingar do antigo guarda da prisão, que o perseguia há tantos anos atrás.

Rebecca Madsen aparece como uma policial que perdeu seu parceiro e ainda não conseguiu substituí-lo. Esperta, é ela quem encontra as digitais de Sylvane e, contando com a tecnologia (leia-se Google), ela descobre a identidade do mesmo e, de quebra, resolve seu problema de parceria: Diego Soto, expert em Alcatraz e escritor de HQs (ponto para os NERDS, rs).

A partir daí somos apresentados aos demais personagens e, entre idas e vindas, começa a ser contado o que acontecia no passado em paralelo à investigação de nossos heróis, vigiados de perto por Emerson Hauser (testemunha ocular do sumiço dos residentes de Alcatraz).

Esse início me lembrou muito ao de Fringe: um episódio morno (quando comparado ao de LOST), mas muito bem desenvolvido e intrigante. Ainda procedural, dá a impressão de que será no formato "bandido da semana", mas, como em Fringe, é bem provável que depois engate uma linha mestra mais conclusiva. Não posso deixar de comentar a semelhança com outra série de que gostava muito: THE 4400. Só espero que não façam com ALCATRAZ o mesmo que com esta última: cancelamento antes de finalizar e responder as perguntas do público. De resto, estou apostando as minhas fichas na série. Terminei o episódio com algumas perguntas em mente, e isso é bom...

Cenograficamente perfeita (como já era esperado), a série tem em Diego Soto um personagem muito legal. Jorge Garcia executa muito bem seu papel de ser os olhos da audiência, verbalizando nossas perguntas e reagindo aos acontecimentos da forma como nós, muito provavelmente, reagiríamos. Fica a pequena ressalva de que talvez pudessem diminuir só um pouquinho a capacidade dedutiva de Rebecca. Ok, aceito que ela é a heroína, mas descobrir coisas somente com uma olhada no local do crime é algo que precisa ser conquistado, ao longo dos episódios. Não são todos que podem ser um Sherlock logo no piloto.

E você, o que achou? Ainda não assistiu? Não perca hoje, a estreia oficial, e depois comente por aqui.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Pré-estreia de hoje: ALCATRAZ


Em 1963, Alcatraz foi oficialmente fechada, devido aos altos custos e às más condições das instalações. Todos os presos foram transferidos. Ou deveriam ter sido...

É assim que começa a nova incursão de J.J. Abrams na TV. Reunindo entre os produtores muitos nomes conhecidos pela já finalizada LOST, a trama se concentra na famosa ilha-prisão de segurança máxima situada na baía de São Francisco. Por motivos misteriosos (sério?), pouco antes do seu fechamento, diversos detentos e guardas somem, repentinamente. Agora, eles estão reaparecendo, um a um, nos dias atuais, para retomar seus projetos antigos. Como e por que elas desapareceram? Por que estão reaparecendo agora? Lá vamos nós, novamente tentando descobrir o que se passa com pessoas oriundos de uma ilha...

A série passou por alguns contratempos ao longo de sua produção. 13 episódios foram encomendados pela FOX, já que a série foi pensada como uma midseason. Quando 7 estavam prontos, como não havia pressa, a produção foi paralisada, para retocar algumas cenas dos já filmados. Isso foi encarado como "problemas criativos", apesar das negativas dos envolvidos. Em novembro de 2011, devido às famosas "diferenças criativas", Elizabeth Sarnoff, responsável pelo roteiro inicial vendido para a FOX, deixou o cargo de principal produtora (ela ainda receberá os créditos como consultora). Ela escreveu muitos episódios de LOST, inclusive o penúltimo.

Com um elenco de peso, capitaneado por Sam Neill e Jorge Garcia (o Hurley, de LOST), e uma equipe que já conhecemos por sua excelência em séries como Alias, LOST e Fringe (entre eles Bryan Burk, Michael Giacchino e Jack Bender), a série promete. ALCATRAZ traz a pouco conhecida Sarah Jones como a detetive Rebecca Madsen, parceira de Diego Soto (Garcia) tentando descobrir o que está acontecendo, sob a direção de Emerson Hauser (Neill), que parece saber mais do que revela. Como em Fringe, talvez surja uma nova personagem feminina forte, como Olívia (Anna Torv).

Sua exibição será às Segundas-feiras, mas hoje, domingo, haverá pré-estreia, no Warner Channel (22 h). Recomendamos, senão pela "moral" dos envolvidos, pela trama, efetivamente interessante até que se prove o contrário. Nos EUA, a série estreou na dia 16, com audiência de mais de 9 milhões. Assista e comente depois aqui. A Liga estará na poltrona, acompanhando!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Vale Assistir: CARTAS PARA JULIETA


William Shakespeare, poeta e dramaturgo, é um dos maiores expoentes da arte inglesa. Responsável por uma das frases mais conhecidas da dramaturgia (To be or not to be: that's the question! - HAMLET), criou a história romântica de todos os tempos: Romeu e Julieta. Nela, narra a vida de dois jovens italianos, filhos de famílias rivais, que se apaixonam e, devido às desventuras familiares, acabam em um final trágico. O autor já nos informa no prólogo que os dois irão sucumbir ao final da trama. Com isso, Shakespeare nos mostra que, em histórias como essa, nem sempre é um problema saber o final, desde que o desenvolvimento do romance seja satisfatório.


Muitas vezes, exigir mais de um filme do que o próprio se propõe pode influenciar na experiência. O gênero comédia-romântica se caracteriza por um encontro fortuito, por complicações para que o relacionamento ocorra e a sua resolução, invariavelmente positiva. Em alguns casos - 500 Dias Com Ela - alguma inventividade de roteiro ou de direção modifica um pouco a fórmula. Mas não há problema com a estrutura, desde que seja bem executada.

Em CARTAS PARA JULIETA (Letters to Juliet, 2010), a dupla de roteiristas Jose Rivera/Tim Sullivan e o diretor Gary Winick partem de uma premissa muito interessante: em uma viagem a Verona, cidade de Romeu e Julieta, Sophia (Amanda Seyfried) é deixada de lado por seu noivo (Gael García Bernal) e visita um muro, onde mulheres contam (através de cartas) para Julieta suas histórias românticas e esperam por sua resposta, com um bom conselho. Lá ela se depara com a história de Claire (Vanessa Redgrave), uma inglesa que nunca teve a sua resposta. Sophia resolve desfazer esse erro e dá início a uma "aventura na Toscana", passando a acompanhar a busca de Claire por seu antigo amor. É claro que Claire tem um neto. E o resto, você já pode imaginar.

Mas é interessante a forma como os clichês surgem na tela. Em uma manobra inteligente, o filme usa a história de Shakespeare como fonte inspiradora e, nos faz a seguinte pergunta: você quer um final diferente ou, simplesmente, assistir como que este(s) romance(s) aconteceram? E, em alguns momentos, o próprio neto de Claire se mostra incrédulo diante de algumas situações, verbalizando comentários do tipo: "é isso mesmo que está acontecendo?"

Não se levando a sério, o filme deixa o espectador livre para aproveitar as belas paisagens da Toscana, muito bem enquadradas e retratadas, resultando em uma belíssima fotografia. O filme, que ganha (em determinado momento) contornos de um road-movie, é bem executado e colhe os frutos por ter apostados em duas grandes atrizes para os papéis centrais. Amanda Seyfried, filme após filme, confirma ser uma das melhores e mais expressivas atrizes da atualidade. Segura, sabe conferir à personagem tanto força e competência (na busca de seus objetivos profissionais) ao mesmo tempo em que possui ingenuidade e fragilidade (na relação com o noivo e Claire). Seus belos olhos transmitem emoções muito melhor do que palavras. Vanessa Redgrave demonstra a insegurança de alguém que desenterra o seu passado, tudo de forma orgânica.

Essas duas ótimas atuações destoam das demais, fato que parece recair sobre a direção do filme. O fato do elenco masculino estar aquém (inclusive Bernal, no piloto automático) aponta para um diretor que, talvez, não consiga exigir o melhor de seu elenco. Lembra um pouco o outro trabalho do diretor (De repente 30), onde o elenco feminino também sobrepõe o elenco masculino.

Mesmo assim, o filme, enquanto comédia-romântica, funciona. Belo, é daqueles que te convidam a viajar pelo Velho Continente. Melhor ainda se estiver bem acompanhado. Bom, essa é uma boa ideia também para assistir ao próprio filme. Boa diversão!