



Em 2002, o roteirista Brian K. Vaughan já trabalhava com quadrinhos desde os anos 90, mas foi neste ano que ele chamou a atenção por um trabalho somente seu, Y - O Último Homem, lançado pelo selo adulto Vertigo, geralmente de independentes e experimentais. A originalidade e qualidade da história e dos desenhos de Pia Guerra chamou a atenção e fez com que o trabalho ganhasse alguns prêmios Eisner, o Oscar dos quadrinhos. Mais do que isso, por se tratar da história de um personagem que não tem super poderes, o criador avisou que a obra teria um final, em seu número 60.
A idéia de analisar como seria uma situação desta não é inédita. A clássica escritora de Frankestein, Mary Shelley escreveu em 1826 O Último Homem, que era um longo romance que falava de uma praga que dizimava a população mundial, mas o último homem em questão só se tornava último ao final da história, e o escritor Richard Matheson escreveu em 1954 o livro Eu Sou a Lenda, que conta a história de um homem que sobreviveu a um vírus que transformou toda a população em vampiros, e virou filme com Will Smith. E o próprio Y pode ter sido inspirado por um romance em quadrinhos dos anos 50 chamado Yorick - The Last Man on Earth.
A obra terminou de ser publicada nos EUA em março de 2008, ganhando várias coletâneas em seguida. No Brasil começou a ser publicada individualmente pela Opera Graphica, ganhou coletâneas similares as estadounidenses, mas migrou para a Editora Panini, onde ganhou por enquanto quatro coletâneas, chegando até o número 23 (de 60), mas os lançamentos irregulares da editora prejudicam um bocado os leitores, que nunca entendem a periodicidade.
Brian K. Vaughan é muito conhecido pelo seu trabalho como roteirista, tendo feito parte da equipe de roteiristas de LOST, além de ter criado diversas HQs, entre elas Y: The Last Man e Ex Machina. Seus enredos são sempre intensos e tratam das mais variadas facetas da condição humana.
Em abril de 2003, durante os bombardeios americanos em Bagdá, quatro leões famintos escaparam de um zoológico quando este foi alvejado. Um acontecimento que, nas mãos do talentoso roteirista, tornou-se a belíssima HQ Os Leões de Bagdá.
Nela acompanhamos a história de Safa, uma leoa que teme se aventurar novamente em um mundo que já lhe foi cruel; Noor, leoa capturada muito cedo e que anseia por conhecer o ambiente fora da Zoo; Ali, o filhote de Noor, para quem tudo é novo e Zill, o leão que deveria liderar o grupo, mas reluta em assumir a responsabilidade.
Através deles, Vaughan nos oferece um novo ponto de vista para o que ocorreu no Iraque, usando esse momento para tratar de assuntos como diferenças raciais e a conquista da liberdade e suas implicações. Uma linda história, acompanhada da competente arte de Niko Henrichon: as cores são vivas e os animais quase pulam dos quadrinhos para o seu colo, dado o grau de detalhamento. Alguns quadrinhos são emblemáticos, como os que ilustram esse post.
Vale à pena conferir. Uma das "brincadeiras" do autor se perde na tradução do título. No original, Pride of Baghdad, a palavra pride pode ser tanto o coletivo de leões quando a palavra orgulho. Um toque legal, não?