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domingo, 5 de fevereiro de 2012

Oscar 2012 - Animação: UM GATO EM PARIS


UM GATO EM PARIS (Une Vie de Chat, 2010) surpreende como uma animação convencional 2D que diverte por sua simplicidade e beleza artística. Ele fala, mais diretamente, com um público um pouco mais adulto, mas seu protagonista felino consegue fazer brotar um sorriso em qualquer criança.

Dino é um gato parisiense que vive durante o dia na casa da delegada Jeanne, sendo o melhor companheiro de Zoé, uma menina introspectiva e solitária desde a morte de seu pai. Entretanto, durante a noite ele acompanha as peripécias de Nico, um gatuno que "passeia" pelos telhados, saltando de uma casa à outra e, com o auxílio do pequeno felino, rouba artigos belos, para figurarem em sua coleção particular.

Paralelamente, temos um ladrão mais ambicioso, Costa. Na mira da polícia, ele e sua trupe pretendem roubar o Colosso de Nairóbi, uma obra de arte que visitará a cidade em breve. Sim, é uma trama simples, mas que se desenrola muito bem e gera um ótimo ambiente para que todos se deliciem com as belas imagens.

Sim, esse desenho vai de encontro ao motivo de ser do cinema: ser visualmente inesquecível! Nos dias de hoje, em que a computação gráfica parece passar com um rolo compressor sobre essas animações mais simples e isso, em muito, acontece pela grande diferença de qualidade existente, assistir a uma película convencional que impressiona me encantou.

A utilização das sombras, a silhueta da cidade quando Dino e Nico pulam de um prédio a outro (com a Torre Eiffel ou Notre Dame ao fundo), a engenhosidade de uma cena em que a casa está escura, a visualização de um perfume que acontece de forma quase poética, tudo auxiliando a desenvolver o roteiro, não sendo somente um rompante. Destaque para a animação do gato, de uma realidade ímpar (seus espirros e espreguiçadas são verdadeiramente animais).

Em um ano em que temos RANGO no páreo, UM GATO EM PARIS corre por fora. Mas não ficaria surpreso se este ganhasse. Ele diverte e anima. E não é para isso que serve uma animação?

terça-feira, 15 de março de 2011

E o Oscar vai para a..... Discórdia!

Os prêmios nas mãos dos produtores
Lobby é uma palavra em inglês que quer dizer corredor, mas por causa das investidas e pressões políticas que costumam acontecer há séculos nos corredores ou ante-salas de reuniões importantes, quem faz estas investidas ganhou o nome de Lobista (que não tem nada a ver com lobos). Os lobistas são legalmente protegidos nos EUA, considerados profissionais, já no Brasil o nome lembra corrupção.

E é falando de lobistas que começaremos a fazer um balanço sobre o Oscar 2011, porque foram eles quem deram para O Discurso do Rei (veja aqui o que achamos do filme) os disputados prêmios de melhor filme e melhor diretor. O prêmio de melhor ator para Colin Firth é, além de talvez o único prêmio merecido, algo que vai além do lobby, mas fica para nosso próximo post sobre o Oscar.
Os tais lobistas são os Irmãos Weinstein, antigos donos da Miramax (que foi vendida para a Disney) que abriram a The Weinstein Company, responsável pela distribuição do filme no território estadunidense, portanto seu representante na festa do Oscar. Os Weinstein já são conhecidos por esta manobra duvidosa no Oscar há anos, e quase sempre com sucesso.

O diretor Tom Hooper e seu (não) merecido Oscar
Desde o começo distribuidores de filmes independentes e estrangeiros, o grande destaque deles em Hollywood foi por terem comprado, bancado e distribuído Pulp Fiction, que recebeu algumas indicações ao Oscar, e talvez tenha sido a primeira vez que a Academia tenha realmente prestado atenção na produção independente. Aí eles aprenderam a fazer o tal lobby, e conseguiram tirar da obra-prima Fargo dos Coen o Oscar de melhor filme para dar ao (hoje) esquecível O Paciente Inglês em 1996. E em 1998 conseguiram o mesmo feito conquistando o prêmio máximo para Shakespeare Apaixonado, que concorria com O Resgate do Soldado A Vida É Bela (que também era distribuído pela Miramax dos Weinstein, e levou o surpreendente e estapafúrdio prêmio de melhor ator). Afinal alguém ainda se lembra de Shakespeare Apaixonado, a não ser pela Gwyneth Paltrow?


Elenco e produção sobem ao palco
Algumas das artimanhas dos Weinstein para aumentar o prestígio de O Discurso do Rei com os votantes da Academia, foi trazer o diretor, britânico, para passar um tempo em Los Angeles, e colocá-lo em todas as festas de figurões de Hollywood contando piadas e distribuindo sorrisos. Seu arquirrival nesta edição do Oscar seria David Fincher, diretor de A Rede Social (que você fica sabendo o que achamos aqui), considerado favorito até então por sua cinegrafia inebriante e única, e seu trabalho espetacular dirigindo um filme sobre uma geração inteira. Mas Fincher sempre foi um cara reservado, tanto que numa premiação onde Clube da Luta ganhou um prêmio por seus 10 anos, foi questionado por Mel Gibson "Você é o diretor do filme?". E Fincher se manteve ocupado durante toda esta temporada na pré-produção e filmagens da aguardada versão hollywoodiana do bestseller sueco Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl With The Dragon Tatoo).

Mas os métodos que os Weinstein e muitos outros usam sempre foram e serão questionados, e se a Academia não mudar (mais) as regras sobre o assédio a seus votantes, o prêmio que já não goza de muito prestígio há mais de uma década deve perder muito mais.

Este ano a Cerimônia do Oscar, apresentado por dois jovens atores em ascensão que não se deram muito bem na função, teve uma queda de mais de 9% na audiência (a emissora que a exibiu nos EUA diz que aumentou 13%) em relação ao ano passado. Será que não é porque geralmente ganha quem sabe vender o peixe melhor, e não aquele(s) que realmente merecia(m)?

sexta-feira, 4 de março de 2011

Direto da Telona: Cisne Negro

Em 1876 o compositor russo Tchaikovsky recebeu do Teatro Bolshoi o pedido de um balé, e no ano seguinte ele entregou "O Lago dos Cisnes", um balé em 4 atos que tinha trama baseada num conto de fadas alemão. A complicada trama fala sobre um príncipe que se apaixona por uma princesa amaldiçoada por um feiticeiro a viver com suas serviçais como um cisne branco, e que só pode virar humana durante a noite. Mas o príncipe é enganado pelo feiticeiro, e promete se casar com uma garota muito parecida com sua amada, pensando ser ela salva da maldição. A tal garota é o oposto da princesa, então chamada no balé de Cisne Negro. Ao perceber o que aconteceu, o príncipe procura sua amada no lago e promete se matar com ela para quebrarem o feitiço.

O que realmente importa no balé são as danças, e a história não é contada por diálogos, portanto muitas interpretações podem ser feitas daquelas imagens. O filme Cisne Negro usa uma versão parecida, mas não explica exatamente quem é a cisne negro, somente que é muito malvada.

olhos de cisne
Toda esta trama fica como pano de fundo psicológico para o tormento da tímida e frágil bailarina Nina, interpretada excepcionalmente por Natalie Portman, que ficou com o Oscar de melhor atriz pelo papel (o filme também concorreu a filme do ano, diretor, fotografia e montagem). A já não tão jovem bailarina quer ficar com o papel principal da montagem de "O Lago dos Cisnes" de sua companhia de balé, mas para isso precisará deixar toda sua perfeição técnica um pouco de lado para também viver o dissimulado papel do Cisne Negro. Durante os ensaios os problemas psicológicos de Nina, e seu conflito interno para despertar a sensualidade e sedução que o Cisne Negro pede ganham contornos assustadores. E tudo só piora com a presença da sedutora e talentosa bailarina Lily, que sutilmente é o oposto de Nina, deliciosamente interpretada por uma Mila Kunis que nada lembra seu papel em That's 70s Show.

sensualizando
O filme acompanha essa paranóia aterrorizante de Nina para a perfeição do balé com muitos sustos, cenas escuras, sexo, drogas e efeitos especiais fantásticos. Tudo surpreende. A estranheza do começo do filme quanto a idade da personagem e como Natalie Portman se encaixa no papel ficam esclarecidas pela mãe controladora de Nina vigorosamente vivida por Barbara Hershey. O ator Vincent Cassel vive o diretor do balé, e sem ele Natalie não iria conseguir dar tanta densidade em Nina. E então temos a participação especial de Winona Ryder como uma bailarina alcoólatra que está se aposentando e sendo substituída por Nina. E todo o trabalho técnico, dos efeitos sonoros a fotografia, definem o conceito bem elaborado de um filme sobre o mundo do balé.

Muitos podem vir a torcer o nariz para a mistura de fantasia, terror psicológico e sensualidade que o filme faz, mas está de acordo com a trajetória do diretor Darren Aronofsky. Pi de 1998, o primeiro filme do diretor, fala sobre um matemático que descobre uma equação capaz de transformar a indústria eletrônica, e que entra numa paranóia de estar sendo perseguido por todo o mundo. Cisne Negro é uma continuação mais elaborada e feminina deste tema.

Mila Ku
Entre as curiosidades está uma cena onde Nina não consegue convencer como o Cisne Negro, então o diretor manda parar o ensaio e pergunta para o bailarino que a acompanha "Você transaria com esta bailarina?", ele não responde por respeito a ela, mas demonstra que não o faria. Mas na vida real foi com este bailarino que Natalie Portman se casou e terá um filho.

E depois deste avanço de Aronofsky na narrativa, na técnica e no uso de efeitos visuais que não saltam aos olhos, mas fazem muito bem ao filme, só podemos esperar para ver o que ele fará com The Wolverine, continuação que não é continuação de X-Men Origens: Wolverine, e que será seu primeiro trabalho por encomenda.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Direto da Telona: O Discurso do Rei

Era para ser uma peça de teatro, mas o ator e produtor Geoffrey Rush, viu em "O Discurso do Rei" (The King's Speech, 2010) material potencial para se fazer um filme. Acreditou tanto no material, que o mesmo acabou por arrebatar 12 indicações ao Oscar® e abocanhou 4 prêmios, entre eles o de Melhor Filme, Diretor, Ator e Roteiro Original - ou seja - os principais prêmios da Academia.

O filme conta a história do Rei George VI (Colin Firth), que antes de ser coroado, era um princípe tímido e acanhado e com sérios problemas de fala, oriundos de uma infância sem a presença dos pais e com uma dura educação, em que as babás eram a figura materna mais próxima, mas longe de ser meiga e suave. Isso fica claro em uma das cenas mais emblemáticas, quando sua alteza conta sua experiência com uma dessas babás cantando para conseguir expor essa dolorosa fase.

As dificuldades de fala do principe, o impede da falar em público, numa época em que o rádio começa a se expandir e esse meio de comunicação era utilizado para que seus líderes pudessem se aproximar do povo, afinal, até esse evento, a distância entre a realeza e o povo era suficiente para exigir eloquência de seus líderes. Os tempos porém, eram outros!
Mesmo sendo o segundo na sucessão ao trono e concluindo que todas as terapias e tratamentos não o ajudariam, sua esposa Elizabeth (Helena Bonham Carter) insiste que ele tenha um tratamento para  curar a gagueira. Na procura por um especialista, ela encontra Lionel Logue (Geoffrey Rush), que usa de métodos pouco ortodoxos para chegar ao resultado por sua alteza. É interessante ver que a relação entre a realeza e esse plebeu, se dá de maneira contrária a de submissão que era esperada, quando os dois estão no consultório, tanto que Lionel chama o príncipe, e depois o futuro rei, pelo apelido que somente os mais próximos sabiam - Bertie.

Após o irmão mais velho abdicar ao trono inglês, George se vê na obrigação de assumir o trono, mas isso, governar o povo inglês, não é uma tarefa assim tão difícil. Complicado, será se comunicar com o povo que na época, está empolgado com a propagação do rádio, e o mundo vivendo momentos conturbados em que a palavra dos líderes é importante e motivadora.

É nesse momento que seu amigo e consultor para a fala entra em ação, para que o agora Rei George VI, consiga fazer talvez, o pronunciamento mais importante se sua vida - a declaração de guerra contra a Alemanha de Hitler, que se contrapondo ao monarca inglês, é um orador de grande eloquência.

O filme é um tanto lento, tanto que logo no início crê-se que dessa tela nada sairá, mas com o passar do tempo, há um progresso e você acaba envolvido pelos personagens, principalmente pela forte e brilhante atuação de Colin Firth e Geoffrey Rush. Helena Bonham Carter também está confortável e esbanja atuação em uma personagem "normal" depois de muito tempo. Podemos dizer que "O Discurso do Rei" é um filme "certinho", que conta uma história de superação de uma pessoa real, que a maioria das pessoas podiam imaginar isenta de problemas e limitações. Justamente por ser esse filme que segue a cartilha hollywoodiana, o filme não vai além de um "bem feito", e por ser um filme de grandes atuações e com muitos diálogos, o espectador pouco acostumado aos filmes mais artísticos, achará "O Discurso do Rei" enfadonho e chato, como deve ser qualquer discurso político de 2 horas!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Polêmica no Oscar 2011


Engraçado colocar um título como o de cima quando vou falar sobre um filme de que gostei muito. Enterrado Vivo (2010), que já não se encontra mais em cartaz (pelo menos aqui em SP), é uma produção que, na pior das hipóteses, merece um adjetivo: corajosa.

Como o título já diz, temos um personagem que acorda dentro de uma caixa de madeira. Inicialmente só encontra um isqueiro no bolso, para minutos depois descobrir que tem um celular próximo aos seus pés, vibrando. Através do aparelho, ele descobre mais sobre a sua situação: vítima de insurgentes iraquianos, ele foi sequestrado e deve pagar milhões para sair dali com vida.

Ok. Mas saberemos mais sobre a sua vida, certo? Flashbacks são para isso, certo? Personagens secundários, fora do caixão, são para isso, certo? Mas nada disso acontece. Acompanhamos todo o desenrolar da história juntos de Paul Conroy (Ryan Reynolds). É asfixiante. Sofremos com ele para alcançar algo próximo aos pés ou para nos virarmos para termos uma melhor visão de algo.

Tecnicamente o filme merece muitos elogios. Filmado em apenas 17 dias e com 7 caixões diferentes, o diretor espanhol Rodrigo Cortés consegue nos prender junto com Reynolds e tira deste uma atuação convincente e aterrorizada. Ele exala o desespero de alguém que estivesse realmente nessa situação. As movimentações de câmera são perfeitas e a fotografia se esmerou, usando a chama do isqueiro, a luz do visor do celular e o que pudesse para iluminar de forma brilhante a cada cena.

O roteiro também é realmente bom. Chris Sparling parece ter feito uma boa pesquisa, para nos mostrar o mundo de civis americanos contratados por empresas para trabalhar na reconstrução do Iraque e o risco que correm de ser sequestrados. A tensão toda me lembrou muito outro filme, Por Um Fio (2002) com Colin Farrel preso dentro de uma cabine telefônica. Infelizmente, foi exatamente uma atitude do roteirista que inspirou título deste post.

A pouco tempo, o mesmo mandou um e-mail para muitos dos votantes aos indicados para o Oscar 2011. E, apontando as coisas boas de seu roteiro, pedia o voto dos mesmos. Isso é proibido e o filme corre sério risco de ter sua candidatura impugnada. Sinceramente não sei se ele conseguiria essa indicação. Na minha opinião, outros filmes do ano que passou merecem mais a indicação e, como disse, o aspecto técnico me impressionou bem mais do que propriamente o roteiro. Mas essa polêmica é um tanto quanto estranha. Diversos estúdios fazem campanhas por seus filmes. Recentemente, Toy Story 3 criou uma série de posters se comparando com outros ganhadores do prêmio, insinuando que poderia estar entre os indicados. A Origem enviou seu roteiro para vários membros da academia querendo indicações. Qual a diferença? Só porque ele soletrou "quero o seu voto"?

Sei que é ingenuidade não entender a importância comercial de um prêmio como este. Mas cá pra nós, para que tanto barulho? Quer pedir votos, peça. Vai da cabeça de cada um dos membros da academia acatar a esse pedido ou não. O fato é que dificilmente um e-mail vai mudar a cabeça de várias pessoas.

Enterrado Vivo, independente da polêmica, é um bom filme. Melhor no cinema, claro, para emular a escuridão e o caixão de Paul como sendo a sala em que estamos. Mas se não der, assista em casa mesmo. Mas espere anoitecer. E apague a luz. Ahhhhhhhhh, e não se esqueça de deixar o celular recarregado. Nunca se sabe quando iremos precisar dele...