terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Direto da Telona: Meu Namorado É Um Zumbi, ou Quando Deixamos de Sentir

Ele ainda está morto, mas está esquentando
Quando começou a divulgação da adaptação do livro Sangue Quente de Isaac Marion, tudo apontava para uma versão zumbi de Crepúsculo, mas eis que o primeiro trailer revelava um filme bem humorado, que então se aproximaria muito mais de elementos do ácido Shaun of The Dead - Todo Mundo Quase Morto, que mostra o apocalipse zumbi como uma consequência de uma sociedade paralisada, e do pouco visto Fido - O Mascote, que acompanha a amizade de um garoto e seu zumbi de estimação. E este é um dos trunfos deste Meu Namorado é um Zumbi.
Sob a narrativa e o ponto de vista de um jovem zumbi que só lembra que seu nome começa com R, descobrimos que o mundo está tomado pelos mortos-vivos, e que eles evoluem para temidos esqueletos.   Mas mesmo soltando piadas, R precisa se alimentar como qualquer morto-vivo, e num destes ataques ele se apaixona pela namorada de um de suas vítimas, e começa a protegê-la. Ao se alimentar do cérebro do namorado da moça, além de ajudá-lo a entendê-la e conquistá-la, o ajudará a se sentir vivo novamente, causando uma reação em cadeia entre os zumbis.
Era só zoação
Os zumbis do filme repetem ações de quando eram vivos (coisa que o próprio George Romero já experimentou), e tem uma agilidade maior que o usual no gênero. Além da maquiagem simplesmente trash da grande maioria deles, o figurino deles não é aquele deteriorado visto em The Walking Dead. Mas tudo isso a favor de um desenvolvimento a favor dos zumbis, porque apesar do título em português sugerir que a trama se desenrola em torno da moça viva, são os mortos quem passarão por uma transformação.
Eu, você e os zumbis...
É preciso destacar que o filme não seria divertido se Nicholas Hoult (Um Grande Garoto, X-Men: Primeira Classe, e os vindouros Jack - O Matador de Gigantes e Mad Max - Fury Road) não tivesse entendido que R é um zumbi, mas com muita humanidade. O personagem coleciona coisas, e escuta discos de vinil, ou seja, ele já estava a um passo da humanidade antes de se apaixonar. E a química dele com a linda e subestimada Teresa Palmer (Aprendiz de Feiticeiro, Eu Sou Número Quatro), que de tão parecida com Kristen Stewart só ajuda a brincar com o fenômeno Crepúsculo, é qualquer coisa nada melosa. Ah! O filme também tem John Malkovich no elenco, mas apesar de ele não estar de todo mal, é evidente que tinha algumas contas atrasadas.
"Pareço assustador, mas quero que me ame"
Mas o grande trunfo do filme fica subentendido entre cenas de ação e comédia bem feitas pelo promissor diretor Jonathan Levine, que despontou com 50%; Pelas ótimas aparições de Rob Corddry (da série Childrens Hospital) como o melhor amigo de R; e a vocação em brincar com elementos do cinema B: a mensagem de que talvez nos tornamos intolerantes, sem tempo (não à toa grande parte do filme se passe num aeroporto tomado por zumbis sem rumo) e insensíveis o suficiente pra não nos amarmos, nos respeitarmos e no mínimo nos olharmos e perguntar "O que é você?" ("What r u, R?" no original).

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Direto da Telona: Os Miseráveis, ou Les Mis


A cena de abertura dessa adaptação cinematográfica do musical francês que ficou conhecido por sua versão em inglês, que por fim adapta o clássico livro de Victor Hugo mostra um porto feito em computação gráfica e se aproxima de prisioneiros acorrentados puxando um navio um enorme navio, e esse é um dos exemplos da contradição de um filme que pretende ser realista. Mesmo acusado de não entender da linguagem do cinema, Tom Hooper venceu o Oscar de direção do ano passado por O Discurso do Rei, e não pode ser acusado de não saber "vender seu peixe". Saído da tv britânica, ele despontou como um querido de Hollywood pelo bom desempenho da minissérie  John Adams da HBO nas premiações, e aproveitou-se pra continuar a mexer com momentos históricos. Mas fica claro que seu ponto positivo é definitivamente dirigir atores.

A conhecida história fala do santo e ladrão de pão Jean Valjean, que condenado foge e se torna o prefeito de Paris, mas é perseguido pelo intolerante Inspetor Javert. No seu entorno estão os miseráveis do título (ele incluído): uma jovem forçada a se prostituir e sua filha, estudantes revoltosos, golpistas, sonhadores...
Fantine é a única coitada que usa rosa. De boas intenções...
Sem o menor pudor, o diretor fez o dissonante elenco deste Os Miseráveis cantarem ao vivo e se entregarem o máximo possível (leia-se: por vezes exageradamente) a seus personagens a fim de uma estética realista, mas o próprio diretor escolhe ângulos pouco convencionais ao estilo minissérie bíblica da Record que não aproveitam os incríveis cenários e figurinos, e algumas narrativas que nada ajudam. Quando os pobres cantam "At The End of The Day", o diretor tenta ilustrar suas palavras, como se os espectadores não entendessem, e isso vai se repetindo até mesmo em lágrimas. Quando Russell Crowe canta "Stars"e a canção-spoiler no final, a inquieta câmera escolhe um estranho ângulo que mostre o céu estrelado (e digital) que o personagem menciona. Como se trata de uma adaptação, o diretor deveria ter percebido que certas passagens que funcionavam no teatro, não teriam o mesmo peso nas telas. Por mais triste que possa parecer, a Fantine de Anne Hathaway vai ao fundo do poço muito rapidamente, fazendo o ótimo trabalho da atriz parecer forçado, pois não há tempo pro público sequer acreditar nesta mãe desesperada.
Quase um "Píramo e Tisbe" no meio da revolução francesa

É um filme de ator? Assim como o irregular O Discurso do Rei, sem dúvida. Hugh Jackman está insubstituível como Jean Valjean, e merecia uma indicação ao Oscar. E talvez Russell Crowe também tenha sido a melhor escolha pro sádico e perturbado Javert, trazendo todo o conflito e fragilidade do personagem em seu jeito desengonçado e forçado de cantar. Mas não sei se diria o mesmo do resto do elenco. Anne Hathaway nunca interpretou uma mãe antes, e além do roteiro não colaborar com o desenvolvimento de sua Fantine, sua atuação está apoiada na mudança física e repentina da personagem, e na muito bem cantada, mas estranhamente filmada "I Dreamed a Dream". Saída da última versão teatral, Samantha Barks que canta muito bem a subestimada Éponine tem cabelos maravilhosos pra uma miserável, e um estilo latino que difere demais dos à vontade (até demais) Sacha Baron Cohen e Helena Bonhan Carter que fazem seus pais golpistas. E o que dizer da linda Amanda Seyfried, vazia na superestimada personagem Cosette (é como se o diretor tivesse assistido Mamma Mia e se apaixonado por ela, como o resto do planeta, mas esquecido de que ela é demais pro papel).
Crowe e Jackman; dois lados da sociedade (mas sempre cantando)
Num plano geral, esse Os Miseráveis é bastante interessante, e soube se vender bem. Honra as cores do musical do qual vem, mas perde por não ter personalidade própria (como Chicago o teve), como por exemplo optar por não cantar algumas partes que ficaram claramente estranhas filmadas (lembre-se que o filme tem somente uma canção coreografada), e deixar uma longa cena de batalha sem canções (que pro público serve de respiro pra tanta cantoria) somente pro ato final.

"Não, não estamos num filme do Tim Burton..."
A enorme vontade de fazer o público se emocionar, e cenas que fariam Chico Xavier ficar orgulhoso impede que o objetivo principal de Victor Hugo se concretize: fazer o público refletir sobre essa miséria, onde a maioria da população vive como selvagens se atacando e se ofendendo por qualquer coisa. Sim, o musical no teatro consegue causar alguma reflexão, então o filme também conseguiria, se não ficasse tão preso em ser apenas comercial.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

TV: Revolution, ou Sob a Sombra Eterna de "Lost"

Há algumas séries de tv que fazem um sucesso popular, mas têm tantos altos e baixos como recentemente Smallville e Supernatural que podem terminar no fundo do poço da atenção do público e crítica, e há aquelas que nasceram pra ficar na história da televisão como Star Trek, Twilight Zone, Dallas, Twin Peaks e mais recentemente Lost. Esta última é conhecida pelos seus altos e médios, apesar da oposição chamar de baixos, e seu final baixo, uma vez frustrante do ponto de vista da curiosidade do público. Alguns podem dizer que a série acabou mal pela sua ambição de ser algo mais, mas de fato é inegável que ela foi algo mais por sua produção, seu elenco, sua narrativa, sua trilha sonora, sua edição, etc. J.J. Abrams, um dos criadores, diretores e produtores não é o novo rei da ficção científica, como dito neste post à toa. E é inegável a influência da série na televisão americana, com muitas séries tentando replicar seu sucesso com produção semelhantes. 
"Me mandaram usar um desses por causa do sucesso de Jogos Vorazes"
O triste é verificar que muitas das séries que tentam imitar Lost sejam dos próprios envolvidos na produção desta. FlashForward tem alguns dos mesmos produtores, e foi considerada por muitos um bom substituto pelo bom enredo (mas mal desenvolvido) da população mundial tendo uma rápida visão de como estariam num futuro próximo. Heroes de um canal rival falava de pessoas com super poderes, supostamente interligadas por uma conspiração misteriosa que acompanhava a trama, assim como em Lost. Ambas foram canceladas pela falta de interesse do público. Podemos chamar de sobrevivente Fringe, que apesar de um começo muito semelhante a Lost em relação ao mistério e sua edição, ganhou uma identidade quase própria (mais próxima de Arquivo X) ao longo dos episódios, e chega em sua derradeira temporada no auge.
"Desculpe pelo seu Totó"
Só o tempo dirá em qual categoria a atual Revolution, exibida no Brasil pelo canal Cinemax, está. Eu diria que está no primeiro time, o das cópias baratas que ficarão cada vez mais desinteressantes ao público. Com uma estréia de grande audiência, a série, que ainda não finalizou sua temporada de 22 episódios encomendados pela emissora, vem perdendo mais telespectadores a cada semana apesar de nomes como o de J.J.Abrams, Jon Favreau (diretor dos primeiros dois Homem de Ferro e Cowboys & Aliens) e Eric Kripke (criador da popular, mas já um tanto decadente Supernatural) envolvidos com roteiro, produção e direção.
 Apesar do ótimo plot do fim da eletricidade e como a humanidade reage a isso, a série comete dezenas, senão centenas de erros principalmente em sua concepção, tentando repará-los ou amenizá-los em sua condução. A trama começa com um homem preparando a esposa, os dois pequenos filhos, e tentando avisar o irmão sobre o apagão que no meio da ligação ocorre em todo o mundo causando tragédias e mais tragédias (como quedas de aviões, explosões, pânico em geral). Apesar desse começo que rende boas (e rápidas) sequências gráficas, a série comete o primeiro grande erro ao pular repentinamente para 15 anos após o evento, onde somos apresentados a protagonista Charlie, filha do homem que sabia do fim da eletricidade. Agora ela é uma jovem (nem vou me dar ao trabalho de chamar uma moça de 20 anos de adolescente, apesar da série dar a entender isso), que precisa cuidar do irmão (cover bombado do Justin Bieber) que sofre constantes ataques de asma, e que deseja conhecer o que há fora da pequena vila onde vivem, e pra isso implica com o pai, que tem uma nova namorada. Entendemos a desastrosa opção de pular 15 anos de história quando vemos o primeiro flashback (talvez a principal característica de Lost), e eles aqui gradualmente também terão função de responder as perguntas que o público fará, e não apenas causar emoção. O que move a trama aqui é Charlie partindo para o resgate de seu irmão asmático sequestrado pela milícia em troca de informações sobre como restaurar a energia, que supostamente seu pai teria, e da ajuda do seu misterioso tio cover de Chuck Norris vivido por Billy Burke (o pai da Bella Swan na Saga Crepúsculo).
"Eu sei que você vai desejar que eu morra no primeiro episódio,
mas eu sou o motivo da trama existir, tá?"
Mas como seria a sociedade sem energia elétrica? Sejamos honestos: seria um desastre! As pessoas têm preguiça de fazer comida em casa, de construir algo com seu suor (que não através do dinheiro), e de se relacionar saudavelmente sem querer nada em troca. A série acerta neste ponto, mas erra em dar num primeiro momento um enfoque geral desta situação, fazendo todos os cenários serem pós-apocalípticos, como se não houvesse mais enxadas no mundo pra capinar o mato, ou como se não houvessem mais braços saudáveis pra construir um prédio. Tudo está caindo aos pedaços, e as pessoas brigam (e se matam) por um pedaço de pão nas ruas.
Com tamanha desolação (que remete ao sucesso The Walking Dead), é claro que os governos cairam, dando lugar às temidas milícias, que anseiam por se tornarem governos soberanos. Politicamente, Revolution copia descaradamente conceitos da excelente, porém subestimada, Jericho, quando divide os EUA em seis áreas e suas milícias. A trama inicia na República Monroe, chefiada por Sebastian Monroe (o barman descamisado de Bali em Comer, Rezar, Amar) que pretende restaurar a energia pra dominar o continente (SIC), e é na fundação dela que o mistério da série se divide, pois personagens importantes se envolvem nisso. A outra metade do mistério está em entender o que levou ao apagão, e alguma resposta pode ser tirada de um pingente pen-drive que misteriosamente liga equipamentos eletrônicos num raio indefinido, e que ao menos 3 personagens possuem, indicando uma conspiração (que conta com uma comunicação eletrônica pós-energia!!) na qual o pai da protagonista estaria envolvido.
"O público te acha mais legal que eu!"
"Claro! Você é legal, mas só está aqui por causa de Crepúsculo"
De todos os personagens, de longe, o mais carismático seja o super vilão Capitão Tom Neville da República Monroe vivido por Giancarlo Esposito (de Breaking Bad), que é um dos poucos sem flashbacks nos primeiros episódios. Mesmo assim ele acaba sendo o mais humano e sensato de todos. E quando você começa a gostar de outro personagem, já que seu flashback o torna menos forçado, o roteiro faz o favor de matá-lo pra "tentar" humanizar outro.
Essa mistura de Lost, Jericho e The Walking Dead teve um bom plot pra ser uma ótima série, mas deve acabar no rol das cópias que serão canceladas muito em breve. Em tempo: com cenário parecido com o da série, o jogo The Last of Us, que será lançado exclusivamente pra PS3 em maio parece bem mais interessante!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Não se deixar emocionar pode ser o ponto cego da vida


Filmes como UM SONHO POSSÍVEL (The Blind Side, 2009) são muitas vezes subvalorizados. Entretanto, roteiros como o desse belo filme atingem um outro aspecto cinematográfico: a emoção.


A decoradora e ex-cheerleader Leigh Anne Tuohy (Sandra Bullock), já na abertura, explica o título original do longa, derivado de um termo do futebol americano: o atacante esquerdo do time deve proteger o lado cego do quarteback (armador das jogadas do time), o blind side. Esse termo servirá de premissa e reverberará por toda a história, metáfora da trama inspirada na história real do então problemático adolescente Michael Oher (Quinton Aaron, cativante).

Sua qualidades (altura e força) extremadas tornam a vida do jovem em uma escola para ricos possível, sob a aposta de que ele possa ser um bom jogador de futebol americano. Mas 'Big Mike', apelido de que não gosta, mal tem o que vestir e enfrenta inúmeras dificuldades para estudar. Ele é muito introspectivo, mas guarda em si um espírito protetor para com aqueles que o inspiram, sua família. Com poucos minutos de filme já sabemos para onde o mesmo aponta, quando Leigh Anne conhece Michael e resolve ajudar o jovem rapaz. Caricaturalmente engraçada e extremamente amorosa, a decoradora é o tipo de mulher que esconde sob a futilidade do dia a dia muita bondade. A família adota Mike e quer dar a ele as oportunidades que a vida lhe negou.

Mesmo sendo mais um daqueles típicos filmes americanos de superação, buscando vencer na vida, UM SONHO POSSÍVEL tem como principal mérito o esforço enorme que a direção e o roteiro de John Lee Hancok (adaptando o livro The Blind Side: Evolution of a Game), fazem para que o longa não seja piegas. Tem sim os seus clichês, mas ele são coerentes com o desenrolar dos acontecimentos. O casting foi perfeito, desde a boa química entre Sandra Bullock e Quinton Aron, passando pelos singelos novos "irmãos" de Big Mike e Kathy Bates como a tutora de estudos do rapaz, que agora tem um sonho e um futuro em ser jogador de futebol americano.



Por que lembrei desse filme e resolvi escrever sobre ele hoje? Ontem à noite, o Baltimore Ravens venceu o Super Bowl XLVII. Michael Oher é jogador do Baltimore Ravens. Ele venceu. A vida imita a arte ou vice-versa...
Sim, o cinema é maravilhoso, mas a vida é tão emocionante!