sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

daPoltronaCast - 2013 em Review

2014 chegou, e a Liga da Poltrona pouco a pouco retorna na vida de todos.
Para comemorar, começaremos o ano com a estréia do daPoltronaCast, e neste primeiro programa o Homem dos Dados, Juliano e Sergio conversam sobre o cinema em 2013, o que esperar de 2014 e dicas bacanas do que ler, assistir, jogar. Esperamos que se divirtam tanto quanto nós, e que comentem e mandem sugestões.



Para fazer o download do podcast (112 MB), clique aqui.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A nova Detective Comics #27!


A editora de quadrinhos DC não tem esse nome por acaso!

Em 1937, a revista DETECTIVE COMICS foi pela primeira vez publicada. Originalmente uma antologia para contos de detetive, a revista tornou-se uma das principais publicações da então National Allied Publications, que mais tarde se tornaria a DC Comics.

Em maio de 1939, um dos maiores heróis (senão o maior) do panteão da DC (quiçá de todos os tempos) fez a sua estréia, na Detective Comics de número 27: BATMAN!



E agora, em 2014, graças ao advento dos Novos 52 (2011) que zerou todas as séries da DC, uma nova Detective Comics #27 foi lançada! Agora exclusiva do Homem-morcego, a HQ foi planejada para festejar o herói e traz uma bela reunião de bat-criadores, incluindo Neal Adams, Frank Miller, Scott Snyder, Brad Meltzer, entre outros. São 7 estórias, com capas próprias e times diversos, que captam bem a psiquê de Batman.

Um trabalho de primeiríssima qualidade nos oferece a oportunidade de viajar por várias abordagens do herói mais taciturno da quadrinhosfera: o didatismo de Brad Meltzer, o tom old-school de Neal Adams, o espírito explosivo de Francesco Francavilla e a coerência carregada de criatividade e ousadia de Scott Snyder.

Quase todos os personagens mais importantes de Gotham aparecem, tantos os aliados quando os inimigos. Os ilustradores, cada um com o seu traço, prestam homenagem atrás de homenagem a todos esses anos de uniformes diferentes, cintos de utilidade, e bat-apetrechos! Destaque para as capas de Frank Miller e Jock, duas obras de arte. O trabalho de Iam Bertram remete a CAVALEIRO DAS TREVAS, mesmo não tendo sido ele o artista da famosa HQ.

As duas últimas peças são fenomenais e, com respeito, brincam com as possibilidades de Batman, um personagem impossível na realidade, mas que se torna real no turbilhão de possibilidades que o lápis e o papel permitem. 

Infelizmente, ainda existe um certo distanciamento das pessoas com relação aos quadrinhos, mesmo com a crescente influência que esses exercem sobre as demais mídias ultimamente. Dar uma chance a esse universo é mergulhar em uma experiência divertida (lembre da Mônica) e densa (lembre da trilogia de Nolan). E Batman é um grande ponto de partida!



Enfim, é uma HQ recomendadíssima, leitura obrigatória para fãs do Homem-morcego!

Já disponível no ComiXology, deve chegar logo logo às bancas tupiniquins!

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Chastain e Bigelow fazem A HORA MAIS ESCURA brilhar!

Tela escura e silêncio. Repentinamente somos surpreendidos por diversas gravações de voz. Não é preciso muito tempo para que quem viveu o momento o reconheça: 11/09, o ataque terrorista mais ambicioso da história! Saltamos dois anos a frente e a primeira imagem que vemos nos coloca em uma sala de "interrogatórios", que logo se transforma em sala de tortura. Nossa protagonista aparece, com o rosto encoberto e tenta lidar com as imagens a que assiste. Com essa bela metáfora sobre o que justifica nossas ações e até que ponto estamos confortáveis em assumir tais ações, Kathryn Bigelow introduz seu novo filme, A HORA MAIS ESCURA (Zero Dark Thirty, 2012), filme que ela mesma definiu como a história da procura da uma agulha muito afiada em um palheiro gigantesco.


Repetindo a parceria (de GUERRA AO TERROR) com o roteirista Mark Boal, Bigelow conta como Maya (Jessica Chastain) dedicou anos da sua vida na busca do líder terrorista Osama Bin Laden. Era de se esperar que um filme como este exagerasse no patriotismo, mas Boal soube criar uma trama quase que documental. Somos levados, num passo a passo intrigante e inquietante, à descoberta do paradeiro do chefe da Al Qaeda enquanto acompanhamos o oscilar de uma agente da CIA entre a frieza e a desolação.

O roteiro perpassa diversos momentos que acompanhamos nos noticiários, desde atentados em Londres e em uma base dos EUA até pronunciamentos de Obama condenando o uso de tortura como método para obtenção de informação. Bigelow aproveita o excelente elenco (James Gandolfini, Kyle Chandler e Mark Strong, entre outros) para mostrar o quanto o ataque mexeu com os egos da inteligência norte-americana. Em certo momento, quando questionado por um de seus subalternos quanto à capacidade intelectual de Maya, o chefe da CIA retruca: na CIA, todos somos inteligentes!

Aproveitando a atuação equilibrada de Chastain, Bigelow mostra didaticamente o que move essa mulher, sem no entanto recorrer a lições maniqueístas. Maya quer prender o ser que pode, a qualquer momento, reaparecer e abalar o seu mundo.

Tecnicamente, o filme segue o já bem sucedido GUERRA AO TERROR. A fotografia, belíssima, ressalta a desolação do mundo de Maya e o viés encorajador que seu trabalho tem em sua vida. As situações por que passa a mostram cada vez mais preparada para lidar com os problemas, falando um palavrão para ganhar a atenção do chefe, rabiscando números em um vidro ao cobrar agilidade de outro ou mesmo quando tira o capuz, aquele do começo do filme, para encarar o interrogado frente a frente. Bigelow entrega a Chastain cenas singulares em que esta, com um belo olhar ou com a postura envergada pelo peso da responsabilidade de reconhecer se o alvo foi abatido, nos lembra o porque de toda aquela ação. Enquadramentos inteligentes tiram dos diálogos a necessidade de explicar qualquer coisa. Uma progressão de humores e sentimentos.

A bela fotografia ilustra o mundo de Maya

Destaque para as brilhantes cenas do atentado em um ônibus em Londres e do tiro fatal em Bin Laden. O soldado fica incrédulo - atitude que seria repetida por todos que ouviriam a notícia ao redor do mundo - diante do que acabara de fazer. Ele sabe que entrou para a história. Ele sente que, finalmente, uma história que começara em 2001 terminava.

Maya entra em um avião e encosta em um fundo vermelho e branco, que não por acaso lembra a bandeira dos EUA. Uma lágrima escorre por seu rosto e com ela, vai embora o peso de seu trabalho. Seu olhar diz tudo: a agulha foi encontrada.

Ponto final.

Enquadramentos cheios de significado

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

TV: Pé na Cova, ou a A Família Addams do Irajá

O escritor, diretor, ex-apresentador do Video Show, produtor e ator Miguel Falabella já cansou de falar que ele considera a comédia muito mais comunicadora que o drama, e pra ele já ficou claro que isso é verdadeiro. Segundo ele se trata de um seriado "cruel, ácido, crítico e apocalíptico", e que também é seu trabalho mais pessoal (ele cresceu no Irajá, onde se passa o seriado). 
Mas aparentemente o projeto surgiu por encomenda. Uma vez que o elenco de A Grande Família, que é um campeão de audência no canal, anda querendo o fim do seriado devido a brigas e o óbvio desgaste mesmo após a passagem de tempo (leia-se: reforma), a rede Globo precisa do substituto que já não tem mais desde o fim de Toma Lá Da Cá do próprio Falabella. Portanto não me parece uma coincidência que Pé na Cova seja sobre uma família suburbana e seus vizinhos, e que tenha uma estrutura parecida (se lá há o Beiçola que vende pastéis, aqui há as gêmeas que vendem cachorro-quente), mas há algo mais a se oferecer ao público.
Pé na Cova acompanha a família de Gedivan Pereira, vulgo Ruço (papel de Falabella), sua alcoólatra ex-esposa Darlene (uma nonsense Marília Pêra), a filha que trabalha de stripper virtual Odete Roitman (a ex-subestimada Luma Costa), o iletrado filho candidato a vereador Alessanderson (Daniel Torres, que estava em Toma Lá Da Cá), Isaura, a babá negra de Ruço que mal se move e fala ("papel" de Niana Machado), e a sonhadora namorada de 19 anos que Ruço leva pra morar com eles Abigail (papel de Lorena Comparato, na vida real irmã de Bianca que viveu Betânia em Avenida Brasil), enquanto administram na parte de baixo da casa a funerária F.U.I. (Funerária Unidos do Irajá). Além da morte, há bizarros vizinhos que os cercam: a mecânica Tamanco (ousada estréia da cantora Mart'nália), Marcão que se traveste de Markassa durante a noite (o ótimo Maurício Xavier), o faz-tudo Juscelino (que seria de Ney Latorraca, que adoeceu, mas finalmente deu a chance pro veterano Alexandre Zachia se destacar) e sua desmiolada irmã carpideira Luz Divina (a veterana atriz de teatro Eliana Rocha), as gêmeas de raças diferentes donas da barraca de cachorro-quente Soninja (a ex-Rouge Karin Hils) e Giussandra (Karina Marthin), o vigilante Floriano (o veterano Rubens de Araújo), e por fim a empregada da família Adenóide (papel da veteraníssima cantora e atriz de musicais Sabrina Korgut, dentre eles Avenida Q e Miss Saigon).
Gomes e o Primo It
Quando começou a divulgação, muitos assimilaram a trama com Six Feet Under - A Sete Palmos, conhecida série estadunidense sobre uma família dona de uma funerária, mas Pé Na Cova lembra mais a premiada série criada por Alan Ball pelo fato da Darlene ser a maquiadora dos mortos. Mas as semelhanças podem ir além se perceber que enquanto lá havia um filho gay tendo um relacionamento inter-racial, além de outras polêmicas, aqui Falabella também ousa ao colocar a namorada 30 anos mais jovem de Ruço vivendo sob o mesmo de sua ex-esposa, e principalmente pela filha que se tranca no quarto pra trabalhar como striper virtual e que começa a namorar a mecânica que representa todos os estereótipos lésbicos da sociedade.
o cinquentão e sua ninfeta
Sem dúvida o autor está fazendo comédia pelos elementos quase nonsense do texto, lembrando de clássicos como A Família Addams em personagens como Juscelino que é uma mistura de Tio Chico com o Primo It, mas também chama a obra de "a grande tragédia da educação nacional". Tal conceito fica claro em personagens como Darlene que diz que "saiu da crínica (sic)", e tem "diproma (sic)", e de cenas como a do segundo episódio A Nação Laica onde os personagens passam alguns minutos discutindo em vão o significado da palavra laico, concluindo que se trata de uma pessoa despudorada. 
"Sim, somos noivos! E daí?"
O autor acerta em cheio ao criar uma família que ao mesmo tempo que é preconceituosa, como o pai que não se orgulha pela filha bissexual que se exibe na internet por dinheiro, é tolerante, como a mãe que se orgulha de ter uma filha tão linda que deve se exibir pra ganhar em dólar, e assim vão aprendendo a conviver com tantas diferenças. Isso se explica no segundo episódio com participação de Laura Cardoso que não se constrange com a sobrinha-neta noiva de outra mulher, e da presença de um transexual que diz que "adoraria colocar silicone pra deixar de usar pneu", enquanto sua filha preconceituosa quer logo sair dali, e do episódio  Quero Morrer no Carnaval, que eles recebem o corpo de uma elegante transexual, mas decidem tanto por gana quanto por preconceito prepará-la de acordo com a certidão, ou seja, como um homem, e são surpreendidos pela mãe que quer que ele seja enterrado devidamente vestido como mulher.
Dirigido por Cininha de Paula, que disse se inspirar em filmes portugueses, cubanos e nos Irmãos Cohen para realizar uma comédia de "realismo doido", fortemente presente em cenas como a da empregada que chega atrasada porque foi tentar pegar alguma coisa nos escombros de um prédio que tinha acabado de cair, e conseguiu 1/2 kg de carne congelada (que deve ter caído de alguma geladeira), um vidro de xampu pela metade e um cortador de unha, enquanto a amiga conseguiu uma máquina de costura novinha que ficou protegida pelo corpo da dona, que ainda estava lá.
Marcão de dia, Markassa de noite
Um dos erros do seriado é o de, por enquanto, fazer a "moral da história" cair nas costas do patriarca Ruço, o protagonista que Falabella erroneamente se deu. Ok, ele é ótimo, mas as gags à la Caco Antíbes pobre soam ruídos numa trama que de tão absurda, é hilária. Ou seja, ele sabota a própria fórmula do sucesso duradouro de A Grande Família que deve substituir.
O seriado talvez ficasse mais engraçado e divertido se percebesse que os temas polêmicos que a sociedade tanto não quer ver no drama são justamente seu forte, uma vez que a estréia de 17 pontos na Grande São Paulo agradou a emissora e deixou claro que o público aceita tais temas no modo comédia. E quem sabe assim toda a crítica ficasse mais clara para a maioria do público? Fora isso, a absurda galeria de personagens do seriado pode ser vista (e apreciada talvez?) todas as quintas, infelizmente após o Big Brother Brasil....