quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

HQs: CAPITÃO AMÉRICA - O SOLDADO INVERNAL

Os quadrinhos podem ser definidos como o livro tentando se tornar cinema. Enquanto nos romances usamos a nossa imaginação para criar ambientes ao redor de personagens que interagem, nos quadrinhos temos duas pessoas (não somente, mas principalmente) responsáveis por isso: o roteirista e um artista. Enquanto um bola a história, o outro recebe as coordenadas e materializa a imaginação, a criação.

Sempre fui atraído por tramas de investigação. Talvez esse interesse explique gostar muito das histórias envolvendo Batman e Capitão América. Sim, eles possuem personalidades diferentes, mas, no fim do dia, buscam resolver os problemas que se colocam em seus caminhos. Batman sempre esteve na crista da onda, seja em desenhos animados, gibis ou cinema, mas o Capitão demorou bem mais tempo para atingir o seu reconhecimento. Em 2011 tivemos o filme solo do Sentinela. Seu grande sucesso aliado ao estrondoso impacto de Os Vingadores em 2012 garantiram uma continuação, para 2014, que já recebeu o título de O Soldado Invernal e é, exatamente, essa HQ o assunto desse post.


CAPITÃO AMÉRICA - O SOLDADO INVERNAL é um encadernado que traz todo o arco escrito por Ed Brubaker. Criador de outras HQs de teor investigativo (como Criminal e Incógnito), o autor sabe abordar o personagem no que tem de melhor: seu caráter honrado frente fantasmas do passado. Ainda se recuperando dos acontecimentos que culminaram com o desmembramento dos Vingadores e a morte de Gavião-Arqueiro, Steve Rogers tenta se encaixar nesse mundo novo para ele, ao mesmo tempo que tenta entender quem está tentando atingi-lo com vários "pequenos atentados".

O autor busca elementos do passado clássico do herói, usando-os de forma fundamentada, construindo um argumento instigante e bem amarrado. Saber usar a longa história de um ícone tradicional como este em prol do crescimento do mesmo é um dos elogios mais eloquentes ao trabalho de Brubaker. Relendo agora, consigo visualizar nesse trabalho uma tentativa vitoriosa de desconectar o personagem, que veste a bandeira americana e era uma propagando ambulante do belicismo norte-americano, de uma imagem ufanista, tornando-o um soldado universal .


Esse enredo interessante se torna ainda mais divertido graças aos traços de Steve Epting, já conhecedor desse universo por ter trabalhado muitos anos em Os Vingadores. Seu desenho não é dos mais precisos, mas acerta em cheio ao detalhar as feições de todos os personagens em momentos estratégicos, tornando desnecessária qualquer legenda para a emoção que está à tona. Seu estilo de diagramar é bem "feijão-com-arroz", sem investir em nada mais arrojado ou inovador, como muitos da nova geração, mas acaba por conferir ao encadernado um caráter histórico que se encaixa perfeitamente com o roteiro, cheio de flashbacks para a Segunda Grande Guerra. A forma como o artista desenha o escudo, principal utensílio do Capitão, é outra característica a ser ressaltada, com certos momentos em que conseguimos sentir o movimento do objeto.


Ótima leitura, perfeito como "esquenta" para o filme que vem por aí, é uma boa forma de conhecer o mundo do Bandeiroso. Aventure-se, você pode (deve) gostar!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

HQs: DARTH VADER AND SON

E se Darth Vader, mesmo a serviço do Império, tivesse um papel ativo na criação de Luke Skywalker? Não, não é George Lucas tentando ganhar mais alguns trocados com sua franquia mais famosa, mas sim o celebrado ilustrador Jeffrey Brown fazendo um exercício de imaginação e produzindo a bela HQ DARTH VADER AND SON, considerada pela crítica uma das melhores de 2012.



De forma hilária e doce, vemos nos quadrinhos Darth Vader, um Lord Sith, agindo como pai. A bagagem do lado negro da força está transposta em cada página, entretanto o olhar paternal, mesmo dentro da capacete do vilão, atenua toda a carga que a figura do personagem carrega.

Com uma ilustração por página, o artista traz momentos clássicos da saga Star Wars com uma nova roupagem, apresentando as aflições e alegrias de ser pai através das lentes de uma galáxia muito, muito distante. Frases conhecidas e repetidas incansavelmente pelos fãs ganham novo sentido, incluindo a famosa "Luke, I am your father". É divertido gastar um tempo em cada ilustração, procurando os pequenos detalhes e rindo de alguma referência.


As "lições de vida" incluem tentar rebater uma bola de baseball usando um sabre de luz, pegar o pote de biscoitos através da Força, ou mesmo levar o filho visitar a Estrela da Morte no famoso "dia de levar o filho ao trabalho", rs. Todas são situações que acentuam e estreitam a ligação especial entre qualquer pai e filho.


Não sou o maior conhecedor desse universo e nem integro a turma que adora os filmes (assisti a todos os seis, mas o único a que realmente assistiria novamente é O Império Contra-Ataca, esse sim muito bom!), mas posso dizer que a leitura rápida (gastei uns 30 minutos) e leve me entreteve e, ao final da leitura, fiquei com um sorriso no rosto.


Não sei se tem e, se tem, ainda não vi a versão nacional da HQ, mas ela é facilmente encontrada na versão original, em inglês, nas grandes lojas do ramo. Se você é fã, leitura obrigatória. Caso contrário, permita-se mergulhar de cabeça em um universo de amor paternal e sabres de luz. E que a Força esteja com você!

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

FILMES: ARGO

Um movimento de revolução no Irã chega a seu auge em novembro de 1979. Os manifestantes alcançam a embaixada americana em Teerã e fazem 52 reféns. Seis estadunidenses, em meio ao caos, encontram uma maneira de fugir e se refugiam na casa do embaixador canadense. A CIA percebe que é apenas uma questão de tempo até que os seis sejam encontrados e assassinados e bola um plano arriscado para tira-los do país.



É esse, basicamente, o mote de ARGO (Argo, 2012), último longa metragem dirigido pelo eficiente Ben Affleck. Diferentemente dos dois primeiros, Affleck sai de sua vizinhança (Boston), e busca algo mais nesse filme ancorado em fatos reais. O plano arriscado de que fala a sinopse soa tão incrível e irreal que a forma como o diretor e os roteiristas Chris Terrio e Joshuah Bearman desenvolvem a história é digno de muitos elogios.

Tony Mendez (Affleck) decide usar do poderio de Hollywood e sugere a infiltração como uma produção de ficção de nome Argo. Os fugitivos se passariam pela equipe de produção, em visita ao país para conhecer possíveis locações. Mas, para que o plano dê certo, todo o processo de produção de um filme deve ser seguido: criação de produtora, storyboards, festas para o elenco e leitura do roteiro, etc. E é nessa hora que Affleck mostra sua eficiência, ao saber contrabalancear muito bem o aumento da tensão no Irã e o meticuloso planejamento em Los Angeles.

Quando o plano finalmente entra em execução, sabemos de cada passo e, dessa forma, cada contratempo é palpável para o público. A atuação corporal dos atores e atrizes, nesse ponto, torna-se crucial, já que nem tudo pode ser dito, e mais uma vez somos brindados com uma direção excepcional. Um escorregar de óculos pelo nariz, um olhar pela janela, um suspiro reprimido, tudo transcorre de forma orgânica e contribui em muito para a imersão no filme. Em determinado momento, em que um dos foragidos tem ressalvas quanto a ação, um simples abraço por parte de sua companheira já diz tudo: é nossa única chance!

O trabalho de fotografia (Rodrigo Prieto) é impecável, usando cores frias em tudo que ocorre com os personagens exilados na embaixada canadense (onde também ressalto o brilhante trabalho de figurino e caracterização do elenco) em oposição às cores quentes do oeste dos EUA. Affleck parece reconhecer sua limitação enquanto ator e em nenhum momento abandona a premissa de seu personagem, sério e analítico, mesmo ao evitar aprofundar-se no problema do mesmo com o álcool ou em sua relação conturbada com a mulher, algo abordado de forma rasa. A direção segura confere credibilidade ao filme, que não descamba para o ufanismo que muitas vezes assistimos em produções dos EUA e chega a mostrar um mea culpa da CIA com relação aos incidentes ocasionados por suas ações no Irã.

O elenco é ótimo, com muitos atores dessa nova safra da TV americana (Bryan Cranston, Kyle Chandler e Tate Donovan) e figuras carimbadas, como John Goodman e Aaron Sorkin. Aliás, esses dois últimos, vivendo o maquiador e o produtor que foram co-conspiradores na ação da inteligência americana, surgem como o alívio cômico, que em algumas vezes quebra a tensão, mas que, ainda assim, diverte. O filme é tão bem condizido que em seu clímax, único momento em que a equipe decidiu exagerar um pouco os fatos para gerar uma cena de impacto, o público já foi cativado e nada mais soa problemático: acreditamos que isso aconteceu realmente dessa forma!

ARGO é um dos grandes filmes de 2012. Merece ser conferido e aproveito para recomendar toda a filmografia, enquanto diretor, de Affleck (Medo da Verdade, 2007 e Atração Perigosa, 2010). É um bom diretor, que vem sendo cogitado para várias produções, dentre elas o aguardado (dado o sucesso de Os Vingadores) Liga da Justiça.


Argo (Argo - EUA , 2012 - 120 min. - Drama / Suspense)
Direção: Ben Affleck
Roteiro: Chris Terrio, Joshuah Bearman
Elenco: Ben Affleck, Alan Arkin, John Goodman, Bryan Cranston, Tate Donovan, Taylor Schilling, Nelson Franklin, Kerry Bishé, Kyle Chandler, Rory Cochrane, Christopher Denham, Clea DuVall, Victor Garber, Zeljko Ivanek, Richard Kind

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Direto da Telona: O IMPOSSÍVEL

No dia 26 de dezembro de 2004, em consequência de um terremoto de pouco mais de 9 graus na escala Richter ocorrido nas profundezas do oceano Índico, ondas gigantescas atingiram a costa de nove países, dentre eles a Tailândia, deixando um rastro de destruição e mais de 230 mil mortos.


Quase 8 anos após a tragédia, O IMPOSSÍVEL (Lo Imposible, 2012) traz para os cinemas a dramatização desse momento sob o ponto de vista de uma família inglesa passando férias em um hotel paradisíaco tailandês. Eles aparentam uma condição financeira estável e, aos poucos, nos é mostrado um pouco de cada um dos constituintes da família: Henry (Ewan McGregor / o pai dedicado e preocupado com a manutenção de seu emprego), Maria (Naomi Watts / a mãe que almeja voltar ao batente) e os filhos Thomas (temeroso), Simon (divertido e amoroso) e Lucas (desafiador). Até que o tsunami atinge em cheio o local onde estão hospedados...

O diretor Juan Antonio Bayona (do ótimo O ORFANATO) aproveita o início do filme para flertar com o acontecido e deixar o publico em suspense, ora usando o barulho das turbinas do avião em que a família chega para sugerir o barulho de uma grande onda, ora mostrando o inquietamento dos animais, como se esses pressentissem algo. A fotografia de Óscar Faura insiste em belos enquadramentos, ressaltando as belezas naturais do local, algo que fica ainda mais poderoso quando, poucos minutos depois, podemos contrastá-las com o cenário de destruição. E que destruição.

É assustador o realismo conseguido pela equipe de produção na cena da invasão do litoral pelas águas. Sempre se fala da força da natureza, mas o que os técnicos em efeitos especiais conseguiram nesse filme é palpável. Cada efeito sonoro ecoa em nossas mentes, tornando um corte em uma perna algo que a plateia consegue quase compartilhar. São minutos de desespero, em que o "barulho silencioso" de estar embaixo d'água parece ser a coisa mais assustadora que pode existir.

A família se vê dividida, e isso abre caminho para duas atuações portentosas, por parte de Watts e do jovem Tom Holland, intérprete do intempestivo Lucas. A saga dos dois é insana, justificando o título do filme, e o garoto empresta uma sinceridade tão visceral ao seu personagem que fica muito difícil segurar as lágrimas. Já MacGregor e os outros dois filhos tem o seu desenvolvimento mais focado nos desafios e nas escolhas a serem feitas quando em desespero. Aliás, toda história baseada em fatos reais carrega uma carga emocional própria e não é diferente nesse filme. E aí reside a minha crítica com relação a essa película.

Bayona e seu roteirista, Sérgio G. Sanchez estavam de posse de um acontecimento real, de uma família real. O simples fato de eles terem sobrevivido e se encontrado já é, por si só, algo tocante. Entretanto, ao meu ver, os dois pesaram demais a mão ao tentar consternar o público. Ficamos envoltos em um vai-e-vem que, ao ser extremado por determinados diálogos, nos faz questionar o que é real e o que é dramatizado. E isso estraga um pouco da imersão. Sem falar na trilha sonora, ensurdecedora e insistente, tentando trazer à tona um sentido de suspense desnecessário, afinal não estamos diante de um TITANIC, onde personagens fictícios usam o pano de fundo histórico para contar a sua história.

Ressalvas a parte, é um bom filme. A sensação de medo vivenciada nas cenas de destruição é claustrofóbica. Além disso, o filme toca brilhantemente em um ponto muito interessante: a capacidade do ser humano de se tornar, com o perdão do trocadilho, mais humano em face ao desespero de outro. Quem dera não fossem necessárias tragédias como essa para esse espírito solidário emergir...

O IMPOSSÍVEL (The Impossible - Espanha , 2012 - 107 min. - Drama)
Direção: Juan Antonio Bayona
Roteiro: Sergio G. Sánchez
Elenco: Ewan McGregor, Naomi Watts, Geraldine Chaplin, Marta Etura, Tom Holland, Sönke Möhring, Oaklee Pendergast, Samuel Joslin