quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

daPoltronaCast: Filmes Subestimados

O quarto episódio do daPoltronaCast discute sobre filmes que foram subestimados ou incompreendidos pelo público e/ou crítica, segundo nosso julgamento.
O que faz o filme ser bom? O que pode ter motivado seu fracasso? O que não entenderam do filme?

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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Frances Ha: como viver um dia de cada vez!


Frances tem um sonho e está atrás dele. Mora em Nova Iorque, mas não consegue pagar o aluguel sozinha. Sua melhor amiga, Sophie, divide o apê com ela, até que circunstâncias da vida decidem abalar essa delicada estrutura. E então, nossa aspirante a dançarina precisa rebolar para se sustentar concretamente (dinheiro para o aluguel) e emocionalmente (seus sonhos) no bom Frances Ha (EUA, 2013).

Co-escrito pela intérprete de Frances - Greta Gerwig, indicada ao Globo de Outro de melhor atriz - e o diretor Noah Baumbach, o roteiro nos leva a conhecer o cotidiano de uma mulher de 27 anos insegura e, aparentemente, menos adulta do que se imagina. Frances teme mudanças se essas não coincidirem com o que ela idealizou. Isso se reflete em suas atitudes e decisões, muitas vezes da boca pra fora e impulsivas.


O longa nos apresenta aos diversos endereços que a protagonista ocupa, mesmo que por pouco tempo. Em determinado momento ela se assusta quando alguém lhe diz que ela parece mais velha do que é. "Mas eu só tenho 27", responde ela, quase que querendo convencer a si mesma de que o fato de não estar bem estabelecida com aquela idade não a incomoda. Sua batalha por um lugar só seu surge como uma grande metáfora da busca pelo sentimento de pertencimento, seja a um grupo ou mesmo a um local.

O filme é em preto e branco, algo que o diretor explicou como sendo a vontade de gerar nos espectadores uma nostalgia instantânea. Não sei se isso ocorre, mas essa escolha ressalta um cuidado todo especial com a iluminação, que transforma as sequências de dança e os momentos em locais fechados em especiais. Tente reparar no jogo interessante que a iluminação gera nas cenas em que a Sophie aparece usando os seus óculos (a armação do mesmo se sobressai devido ao reflexo).

O tom naturalista com que os personagens são mostrados facilita a reflexão e a inserção deles em no mundo real, ainda que a indecisão que eles demonstram soa um pouco exagerada por vezes. Os diálogos inteligentes são um dos pontos altos do filme, além da ótima trilha sonora (Bowie surge como hino para nossos personagens).


É um filme agradável, com uma personagem carismática em uma obra cativante e bem humorada. Boa pedida!

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

R.I.P. Philip Seymour Hoffmann

O multifacetado ator Philip Seymour Hoffman foi encontrado morto, aos 46 anos, em seu apartamento em Nova Iorque no dia 2 de fevereiro. As circunstâncias preliminares apontam pra overdose, mas seu estilo de vida privado nunca foi relevante comparado ao seu potencial como artista.

o ator bem antes da fama
O ator já tinha feito participações pequenas em diversos filmes como "Perfume de Mulher" e "Twister", mas foi apenas na parceria com o diretor Paul Thomas Anderson em "Boogie Nights: Prazer Sem Limites" de 1997 que ele mostrou que tinha muito mais versatilidade do que aparentava. A partir dali, não parou mais. Se tornou um queridinho do cinema cult com "Próxima Parada Wonderland", "O Grande Lebowski" dos Irmãos Coen, no badalado indie "Felicidade" de Todd Solondz, e vivendo uma drag queen que ajuda Robert DeNiro em "Ninguém é Perfeito".

em "O Mestre"
A partir daí começou a ser um ator disputado em produções de todos os tipos, das quais ele sempre experimentou aquelas que mais o desafiassem. Para isso, ele também pôde trabalhar com grandes diretores. Foi assim na constante parceria com Paul Thomas Anderson como o enfermeiro de "Magnólia", em "Embriagado de Amor" e mais recentemente no polêmico "O Mestre", onde ele brilhantemente vive uma caricatura over de L.Ron Hubbard, criador da religião Cientologia. Ou seus trabalhos com Spike Lee em "A Última Noite", Anthony Minghella em "O Talentoso Ripley" e "Cold Mountain", o naquele-momento-promissor Brett Ratner em "Dragão Vermelho", J.J. Abrams em "Missão: Impossível 3", Mike Nichols em "Jogos do Poder" ao lado de Julia Roberts e Tom Hanks, Charlie Kaufman em seu experimental "Sinedóque, Nova Iorque", e George Clooney no brilhante "Tudo pelo Poder".

no filme que lhe rendeu um Oscar
Foi na obra-prima de Cameron Crowe "Quase Famosos" de 2000, que começou a temporada de prêmios, e o carinho do grande público.  A partir dali ele ganharia 73 prêmios, incluindo o Oscar de melhor ator em 2006 por sua detalhada representação do escritor Truman Capote em "Capote". E outras 54 indicações, como as 3 indicações ao Oscar de ator coadjuvante por "Jogos do Poder", o tenso "Dúvida" e mais recentemente "O Mestre".

Seus últimos trabalhos incluíam o piloto da série de comédia
Em "Jogos Vorazes: Em Chamas"
"Happysh" (ex-"Trending Down") do canal Showtime, o blockbuster "Jogos Vorazes: Em Chamas" e os ainda inéditos "O Homem Mais Procurado" baseado no livro de John le Carré (mesmo autor de, entre outros, "O Jardineiro Fiel") e as duas partes de "Jogos Vorazes: A Esperança". Deste último vale notar que o ator havia filmado toda a primeira parte, e faltava apenas poucas cenas para a segunda, não prejudicando muito sua finalização. Há, ao menos, uma cena importante que ele não havia gravado, e esta deve ser filmada usando truques de câmera e até efeitos visuais.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Iguais e diferentes, eles se entendem!



Eles tiveram pequenos desvios de conduta e, por conta disso, são confinados no colégio, em pleno sábado. Os cinco jovens devem passar as próximas horas trabalhando em uma redação de tema bem simples: o que pensam sobre si mesmos! Esse é o enredo de O Clube Dos Cinco (EUA, 1985).

Algo fica evidente logo no início do filme: são cinco pessoas completamente diferentes, estereótipos assumidos do esportista, da princesa, da neurótica, do inteligente e do rebelde. Com o passar do dia, no entanto, eles passam a aceitar (ou pelo menos entender) uns os outros, tornando-se amigos.

Escrito e dirigido por John Hughes, a produção tem um elenco escolhido a dedo (queridinhos da época como Emilio Estevez, Molly Ringwald e Paul Gleason) e busca apresentar a juventude dos anos 80. O início, com a leitura de uma carta, traz a essência do filme em duas frases: 'Você nos enxerga como você deseja nos enxergar' - frase dirigida ao diretor da escola - e 'Passamos por uma lavagem cerebral'. A partir daí o longa mostra esse dia específico na vida dos cinco adolescentes, mas que, para nós espectadores, é um resumo do cotidiano dos jovens. Tudo o que são ou conquistaram sofre o efeito do medo e das frustrações com que são confrontados. 

As diferentes personalidades ajudam Hughes a compor um belo mosaico, onde todas as cores tem sua beleza e sua vontade de se sobressair. Cada um aplica os seus meios para levar aquele dia em frente e tenta demonstrar pretensa superioridade que, aos poucos, se perde nas semelhanças que passam a brotar do grupo. Problemas familiares? Desentendimentos? Um mundo que não os compreende? Eles se interpelam e, naquele microcosmo, verificam que não estavam tão sozinhos quanto imaginavam.

A trama se desenrola de forma orgânica e o ambiente é facilmente absorvido e relacionado às nossas lembranças estudantis. Méritos para o diretor, que dá espaço para que seus personagens nos surpreendam em sua simplicidade. Acabamos por nos aproximar de todos em algum nível. Destaque para a cena em que os personagens, formando um círculo, contam suas histórias. Os intérpretes estão tão à vontade com seus personagens que parece que estamos espionando uma reunião de um clube. O clube dos 5!



Um clássico dos anos 80, merece ser visto porque muito do que apresenta ainda pode ser visto nos dias atuais. Muitas vezes, pessoas são enquadradas em certos estereótipos por conveniência e falta de envolvimento. As pessoas nos enxergam como desejam nos enxergar. Junte-se ao Clube!