segunda-feira, 10 de março de 2014

The Walking Dead - The Game

Lançado em abril de 2012, "The Walking Dead - The Game" poderia ser mais um fiasco de adaptação pros videogames, mas surpreendeu por uma narrativa original dentro do universo estabelecido por Robert Kirkman nas HQs e na série de televisão. Por sorte, quem veio com a idéia de levar este específico universo apocalíptico foi o estúdio Telltale Games - onde a maioria dos funcionários veio da LucasArts -, por quem Kirkman já tinha apreço, e conhecida por suas graphic adventures, que já havia demonstrado foco maior em contar histórias em jogos como "Sam & Max", "Strong Bad's Cool Game for Attractive People - Homestar Runner", a última aventura "Monkey Island", e falhadas tentativas de algo que só foi conquistado por "The Walking Dead" em "De Volta para o Futuro" e "Jurassic Park".

O desenvolvimento do jogo teve a consultoria de Kirkman através de sua Skybound Entertainment, mas o enredo não foi criado por ele, apenas suas regras (por exemplo nem mesmo mencionar Rick Grames - protagonista das HQs). Três parâmetros foram fixados pra esta nova trama: a personagem Clementine como bússola moral, um encontro dela com um estranho numa sala de estar em algum momento e o final. Desta forma eles puderam dividir perfeitamente o enredo em cinco capítulos que foram lançados bimestralmente.

A trama e as decisões do jogador (por escolha de diálogos, estratégia, ou mesmo socorro - entre o bem/mal, certo/errado) acompanham Lee Everett em Atlanta na Georgia, um professor universitário condenado por um crime do qual se responsabiliza conscientemente. Mas ainda na viatura policial, o caos se instala nas ruas com os ataques zumbis, e ele acaba sozinho e algemado. Ao encontrar abrigo numa casa abandonada, ele encontra Clementine, de apenas 8 anos, protegida numa casa de árvore. Sozinhos, eles decidem cuidar um do outro, e procurar os pais de Clementine, que haviam viajado pra Savannah, no mesmo estado, a deixando com a babá. Logo eles vão parar na fazenda de Hershell (o mesmo da série de TV), mas logo são banidos com outra família. O grupo aumenta quando se abrigam numa farmácia na cidadezinha de Macon, a cidade natal de Lee. A partir daí as muitas decisões que o jogador deve tomar por Lee ficarão cada vez mais tensas, na medida que a história e personalidade dos personagens também ficam mais profundas.

A segunda temporada do jogo muda o personagem pelo qual o jogador deve tomar as decisões para a própria Clementine, agora supostamente com 11 anos de idade. A troca acontece naturalmente, mas é também um grande avanço pra indústria de jogos ter uma menina como protagonista num enredo tão ou mais violento que o da série televisiva. 

Ao contrário do seriado, que muitas vezes não parece ter um superobjetivo e pouco consegue aprofundar os personagens surpreendendo o público, o jogo faz tudo isto funcionar. O objetivo de encontrar os pais de Clementine em Savannah na primeira temporada, e de encontrar Christa, por quem Clementine mantém uma dívida moral na segunda temporada, nunca atrapalha o desenvolvimento de tramas paralelas, e as surpresas sobre o passado e presente de todos os personagens. E ao contrário da série, que mantém o suspense na próxima horda de zumbis que aparecerá na próxima esquina, o jogo consegue manter isto nas ações dos personagens, e muitas vezes em ações que pouco têm a ver com zumbis. Os vivos é quem são os grandes vilões no jogo.

Da primeira temporada, onde há mais opções entre ser muito correto/bondozo ou muito errado/rude, pra segunda temporada onde Clementine tem mais opções pessimistas, há o importante desenvolvimento da trama e dos personagens. Seria infantil achar que Clementine, após tantos perrengues, pudesse dar respostas inocentes a personagens suspeitos. No episódio "A House Divided", ao perceber a desconfiança da garota, um personagem lhe pergunta o que as pessoas estão procurando, no que ela responde família, e ele filosofa "as pessoas precisam saber em quem confiar, né". Mas quem é sua família em tempos tão difíceis?

Um encontro com o mal. Alguém comparou com Governador? Yeah!
Dividido em pequenos capítulos ou cenas, cada episódio dura em média 2h30min, mas os maiores problemas da experiência, ao menos no PlayStation3, é a queda de framerate (leia-se imagem quadriculada) e o irritante loading entre os capítulos que por pouco não minam a narrativa.

O sucesso do jogo (e do formato graphic adventure), que foi lançado de consoles a tablets, fez a Telltale ousar adaptando o universo das HQs "Fables" em "The Wolf Among Us", e futuramente com os universos do game "Borderlands" e dos livros "Game of Thrones".

domingo, 9 de março de 2014

Literatura: Só Garotos

No começo da música "Gloria", Patti Smith incorpora seu poema "Oath" que começa com "Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não os meus". Ao contrário de parecer totalmente herético, a passagem é uma declaração de existência, como um voto de responsabilidade pelos próprios atos. Segundo Patti, Cristo era alguém contra quem valia a pena se rebelar, pois ele era a rebelião em pessoa. E tudo isso tem a ver com a mais pura fé.

O livro "Só Garotos" é a deliciosa autobiografia de Patti Smith
lançada em 2010, e é resultado de uma promessa. De fé. Criada por uma simples família de valores tradicionais de Chicago nos anos 50, Patti acabou crescendo com os irmãos numa pobre Nova Jersey. Foi lá que ela destruiu o próprio futuro ao ficar grávida aos 19 anos, e descobriu que os tais valores tradicionais já não eram mais tão tradicionais ao continuar acolhida pelos pais. Tradições estas que já a amedrontavam desde criança, quando questionou a mãe sobre ter de colocar uma camiseta pra brincar com garotos, a existência de Deus e os motivos pra rezar. Ela compreendeu a parte espiritual muito cedo, quando muito cedo teve contato com o sentimento de morte, mas nunca deixou as outras questões atrapalhar seus planos. Foi assim que ela decidiu sair de casa, e encarar Manhattan. Antes, a mãe, sem saber bem como apoiar a filha, lhe embrulhou um uniforme de garçonete e disse "você não daria uma boa garçonete, mas aposto em você mesmo assim". A mãe tinha razão quanto a ser garçonete e em apostar na filha.

Mas "Só Garotos" não fala exclusivamente de Patti. Se trata da promessa que ela fez a Robert Mapplethorpe, seu companheiro por muitos anos. Ele, um típico filho de fervorosos católicos que se desgarrou do rebanho, salvou Patti de apuros em ao menos dois momentos antes deles decidirem morarem juntos pra nunca mais perderem o vínculo. Não eram amigos, nem namorados, nem noivos, nem casados, nem irmãos, mas tudo isso junto. A história de amor deles é geralmente vinculada em artigos sobre relações não-monogâmicas, mesmo que eles nunca tivessem rotulado de qualquer forma.

um dos famosos retratos de Robert
Juntos eles passaram muitos perrengues pra ter sua arte (desenhos, recortes, poesias, colagens, textos em geral) reconhecida de alguma forma. Cada um a seu modo mergulhou num mundo próprio, mesmo que de mãos dadas, com alguns muitos percalços, e descobriu suas reais vocações. Mas pra isso precisaram fazer muito contatos e focar em seus sonhos - como o de Robert em ser uma espécie de Andy Warhol e se cercar de seus amigos. Nesta jornada passaram por uma América em transformação (política, científica e intelectual) e encontraram figuras como os músicos Jimi Hendrix, Janis Joplin e o dramaturgo Sam Shepard, além de muitos figurões excêntricos que muito os ajudaram.

a famosa capa do disco de estréia de Patti
Patti se tornou uma roqueira famosa, praticamente sendo a precursora do punk-rock sem se dar conta disso, misturando sua poesia com notas musicais e parcerias corajosas. O caminho que ela segue pra chegar a este ponto é surpreendente. Robert se torna um famoso fotógrafo, muito mais conhecido pelos icônicos retratos e praticamente catalogando a cena sadomasoquista de Nova Iorque. Patti tem hoje 67 anos, ao menos 11 discos gravados, e além desta autobiografia, coletâneas de poesias do passado. Robert deixou seu legado, como queria, mas faleceu em consequência da AIDS em 1989 aos 42 anos de idade.

Auto retrato de Robert
Numa tarde tomando café numa garrafa térmica e observando as pessoas na Washington Square, Patti e Robert começaram a ser observados por um casal de turistas. Exibicionista, Robert apertou a mão de Patti com carinho, e a turista falou ao marido "tire uma foto deles, acho que são artistas", no que o marido respondeu dando de ombros "ora, vamos logo. São só garotos".

sábado, 8 de março de 2014

The Square

Num dos momentos do documentário "The Square" (A Praça), um motorista militarizado diz que as manifestações anti-presidente Hosni Mubarak que tomaram a praça Tahrir eram formadas por pessoas que não tinham o que fazer, por ladrões e bandidos com tal convicção que ainda olha pro documentarista e diz "ah, você sabe disso porque esteve lá, né?". O documentarista não responde. A edição mostra momentos antes a praça tomada por ativistas, manifestantes, músicos, crianças e mulheres em barracas num sistema de comunidade invejável - numa barraca há pessoas fazendo comida, em outra área há uma grande fogueira e pessoas cantando, numa outra barraca homens conversam sobre o presidente ainda não ter entendido que para terem menos corrupção, mais educação e saúde, ele teria que sair do poder, e todos se ajudavam seja por água, comida, abraços ou cigarro. Dentre os manifestantes há o ator de origem egípcia Khalid Abdalla, o protagonista de "O Caçador de Pipas".


a ator Khalid Abdalla em Cairo
 "The Square", da documentarista egípcia Jehane Noujain, acompanha na maior parte do tempo Ahmed Hassan, um jovem revolucionário em seu cotidiano de manifestações por ruas repletas de discordâncias, líderes sem ideais políticos e muita arte de rua. E é pelos olhos e visão política dele que o filme avança. Mas ele não é o único no grupo de revolucionários que querem derrubar líderes corruptos e regimes suspeitos, arriscando suas vidas pra construir uma nova sociedade de consciência. Além dele e do ator, também acompanhamos de perto o muçulmano Magdy Ashour, inclusive sua família.

Ahmed Assan - revolucionário
Após 18 dias de manifestações na praça, em fevereiro de 2011 o presidente renuncia ao cargo, mas meses depois foi preciso outra intervenção pra derrubar o governo provisório militar que não atendeu a demanda pública de criar uma nova constituição. Mesmo sem um candidato que atendesse ao desejo dos revolucionários, as apressadas eleições dividem o povo entre liberais que não querem nem o candidato militar nem ligado a partido religioso, e muçulmanos, que apoiariam o candidato Mohamed Morsi da Irmandade Muçulmana (através do Partido da Liberdade e da Justiça) . Militares ou muçulmanos fundamentalistas? Qual governo seria pior? As manifestações foram um fracasso?

a praça num dia normal
O filme foi acusado de parcialidade ao mostrar os revolucionários como heróis, e não mostrar todos os lados da revolução. Há quem diga que a maior parte do povo foi a favor que os militares limpassem a Praça Tahrir das manifestações (inclusive a transformando num lindo - e abominável - jardim), e que os atropelamentos de manifestantes por tanques que culminaram na morte horrenda de mais de 20 deles, foi apenas consequência de uma revolução desorganizada. Eu discordo, porque mesmo mostrando tudo sob o ponto de vista de poucos manifestantes, os depoimentos de todos deixam claro muita coisa.

a praça tomada por manifestantes
Num paralelo com o Brasil, o que "The Square" mostra é que os interesses políticos contaminam a fé das pessoas de forma tóxica, e o fundamentalismo religioso pode acabar com um país. No começo as manifestações não tinham nada de religioso. Eram apenas jovens querendo mais saúde, educação e um governo que governasse apenas para o povo por uma nova constituição. Na ascensão das manifestações na praça, a Irmandade Muçulmana, uma organização que tenta ocupar todos os espaços das sociedades islâmicas a fim de impor seu lema "Deus é o único objetivo. Maomé o único líder. O Corão a única Lei. A jihad é o único caminho. Morrer pela jihad de Deus é a nossa única esperança" mandou seus fiéis pra praça. Por trás disso estava o interesse da organização em fazer com que esta nova constituição fosse feita segundo seus interesses. Num certo ponto, vemos que com a posse do governo provisório militar, que supostamente havia feito um acordo com a Irmandade, os muçulmanos abandonam a luta. Quando as manifestações contra o então presidente eleito (e aparentemente fantoche da Irmandade Muçulmana) Mohamed Morsi crescem, o personagem ligado à Irmandade Magdy Ashour é chamado pras manifestações pró-Mursio, mas sabe que algo não está certo, e diz "quando a Irmandade chama você pra luta, você deve ir", e sua mãe religiosa quase o descreve como um traidor vagabundo por estar em dúvida do que seria o certo, e é sua filha quem resume tudo ao dizer "mesmo com Mursi no poder, continuo sem plano de saúde".

a diretora Jehane Noujain
Bancado pelo Netflix, o filme teve uma modesta distribuição em salas de cinema, que garantiram a indicação do filme ao Oscar de melhor documentário, o primeiro do sistema de streaming. Da sua primeira exibição em janeiro de 2013 até seu lançamento em janeiro de 2014, o filme ganhou nova edição pra mostrar novos desenvolvimentos políticos. Mas o pior certamente foi o golpe militar de julho de 2013, que derrubou Mursi (e a Irmandade Muçulmana) após desorganizadas e violentas manifestações, suspendeu a reforma constitucional e impediu qualquer tipo de manifestação e qualquer ação da Irmandade Muçulmana (aquela que ajudou em 2011 por interesses próprios).

Curiosamente, Praça Tahrir significa Praça da Liberdade, mas o documentário nem precisa falar isso.


sexta-feira, 7 de março de 2014

daPoltronaCast: House of Cards

 No 6º episódio do daPoltronaCast escancaramos a caixa de pandora da política falando sobre o sensacional seriado "House of Cards", estrelado por Kevin Spacey, em uma atuação histórica. A série representa uma revolução? A trama se compara à nossa realidade?

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