Mostrando postagens com marcador tv. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tv. Mostrar todas as postagens

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Muito (mas muito) Além do Horizonte

O que poderia dar errado numa trama que falasse sobre uma sociedade alternativa em busca da felicidade plena no meio da floresta amazônica? Tudo, se a estrutura e principalmente os personagens forem frágeis. É o caso da novela das 19h da Rede Globo "Além do Horizonte", escrita por Carlos Gregório (roteirista do filme "Se eu Fosse Você") e Marcos Bernstein (roteirista de "Central do Brasil" ao lado de João Emanuel Carneiro, autor do hit "Avenida Brasil") com a colaboração de outros seis roteiristas.

A trama começa com os jovens Marlon (Rodrigo Simas) e
jovem elenco protagonista
Paulinha (Cristiana Ubach) fugindo para a tal sociedade utópica em busca de uma misteriosa e inexplicável felicidade no meio da floresta amazônica. O irmão de Marlon, William (Thiago Rodrigues) e o namorado de Paulinha, Rafa (Vinicius Tardio) começam independentemente uma investigação pra descobrir o paradeiro deles. Paralelamente, a milionária Lili (Juliana Paiva) descobre que seu pai pode estar vivo, e começa uma investigação que liga seu desaparecimento ao sumiço da tia da Marlon e William, Teresa (Carolina Ferraz) anos atrás. Juntos eles encontram sinais da busca de uma felicidade plena em livros, especificamente em uma livraria que serve de fachada pro recrutamento de novos moradores pra tal sociedade utópica.

máquina de felicidade ou tomografia?
Uma trama assim deixa pouco espaço pra humor, que só era encontrado na comunidade ribeirinha de Tapiré, o núcleo mais interessante da novela, e também a civilização mais próxima do tal local secreto. De todos os personagens da trama, era a professora Celina (Mariana Rios) de Tapiré quem mais se destacava, numa mistura de engajamento social, heroína e humor natural.

A baixíssima audiência de 13 pontos fez os autores acelerarem a
"É, vamos ter que reprisar o casal de 'Malhação'"
lenta trama que não revelava qual a função da tal sociedade utópica e do que seria a tal felicidade, que seria na verdade uma máquina de lavagem cerebral sem objetivo claro. A tal sociedade utópica saída de filmes de ficção científica, com todos fazendo experiências e usando roupas claras e opacas, continua sem o menor objetivo claro, mas os muitos vilões por trás dela parecem querer algo que os telespectadores não compreendem. Mas nem só de tramas vivem novelas, e os personagens insípidos precisaram se reestruturar, e assim o casal protagonista Lili e William deixou de ser um casal pra que Lili viesse a se apaixonar pelo cunhado Marlon, já que seus intérpretes já haviam feito um casal de sucesso na última temporada de "Malhação" (e a audiência reagiu positivamente), e William abandonado caiu nos braços da agora insípida heroína professora Celina que, pasmem, começou a cantar pro amando, numa clara alusão a personagem da atriz em uma das, novamente, trocentas temporadas de "Malhação". Isso sem contar o núcleo urbano de Flávia Alessandra e seu triângulo (a)moroso com Guilherme Fontes e Alexandre Borges. Sem muita comédia, outros tantos personagens tentam forçar a graça.

O maior pecado da trama é a falta de estrutura e convicção de seus valores. De longe, poderíamos dizer que a busca da abstrata felicidade "além do horizonte" fosse uma analogia à busca dos jovens pra uma função no mundo, mas a trama jamais explorou esta crítica objetivamente. Sem personagens pra realmente chamar de protagonistas, e torcer a favor esperando um começo, meio e fim toda a trama patina. E a bruxa parece estar solta na produção com Claudia Jimenes tendo de se afastar pra se recuperar de uma cirurgia no coração, Laila Zaid precisando se recuperar de uma forte pneumonia e até Flavia Alessandra sofrendo uma luxação no pé que acabou sendo incorporado à trama.

"Jogaram até eu no buraco"
Acredito que todos estes problemas poderiam ser solucionados se os autores tivessem uma escaleta original pra novela, mas todos os conceitos são provenientes de outros produtos. A sociedade utópica saiu de "Lost", assim como toda falta de explicação que a cerca. O monstro que assustava Tapiré era uma mistura de monstro-nuvem do mesmo "Lost" com a explicação de "A Vila". Até a livraria, que servia de recrutamento, se chamava Quimera, numa clara alusão - inclusive no logo - à "Lost". Isso sem contar as provas pra "conhecer a felicidade plena" que lembraram demais "Jogos Vorazes".

Talvez se acompanhasse o novo ritmo samba-rock da música tema composta por Erasmo e Roberto Carlos, a novela teria tido maiores atenções.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

TV: Primeiras Impressões de "Em Família"

Negativamente tradicional e repetitiva, "Em Família", a nova novela das 21h da Rede Globo, estreou patinando muito na audiência. Resultado de esperar que o público tenha paciência com uma trama arrastada que começa nos anos 80, passa por um período entre 1989/90 até chegar aos dias de hoje. Estas duas primeiras fases deixariam qualquer autor de "Malhação" orgulhoso. Repleto de atores adolescentes, jovens, inexperientes e subaproveitados em diálogos e cenas clichês, o público resolveu ignorar capítulos pra ver o que realmente interessava ao final da segunda fase.

Para tal, a Globo resolveu mudar a ordem das coisas. Inicialmente concebida pra ter 12 capítulos, as
o triângulo amoroso enquanto jovens
duas primeiras fases sofreram novas edições que cortaram muita coisa e estendeu ao máximo outros capítulos. O resultado é que a fase atual se fez presente já na metade do sétimo episódio. 

As duas primeiras fases contaram sobre a amizade de Helena, seu namorado Laerte e Virgílio desde crianças. O ciúmes de Laerte, o senso de liberdade de Helena e enfim a tragédia - Laerte agride Virgílio e o enterra vivo às vésperas de seu casamento com Helena. Destas fases, consagraram-se as atuações de Bruna Marquezine como Helena e Alice Wegman como Shirley.

Na fase atual, Laerte cumpriu sua sentença e passou mais de 20 anos fora do Brasil se consagrando como flautista, teve um filho com Shirley e supostamente um filho com Helena, que se sentindo culpada por todos os acontecimentos se casou com Virgílio. Na esteira da tragédia pré-casamento, várias outras se seguiram - a irmã de Virgílio foi estuprada, o pai de Helena teve uma parada cardíaca fulminante, o irmão de Helena virou alcoólatra de vez, o pai de Laerte teve de amputar uma perna pela diabetes.

Alice Wegman como Shirley jovem
Um dos problemas em tudo é a equivocada escalação de elenco. Com três fases, muitos atores não combinavam com suas partes de outra época. Sem contar a diferenciação de idade. Natalia do Valle (60 anos) é mãe de Julia Lemmertz (50 anos), que vive uma Helena de pouco mais de 40 anos, que chama Vanessa Gerbelli (40 anos) de tia, que teria uns 50 anos. 

Mas e a trama? Laerte menciona diversas vezes sobre a fênix, indicando que o amor dele e Helena irá renascer na trama, apesar dele ter enterrado o rival vivo. Se Laerte se tornasse um homem melhor mais de 20 anos depois, seria plausível, mas não é o caso. Namorando a personagem de Helena Ranaldi, ele a trata miseravelmente como uma estepe em cenas subaproveitadas em Viena. Aliás, são da atriz as melhores e mais interessantes cenas da fase atual. Conhecido pela filosofia de botequim, Laerte faz cara de pensador dentro do carro ao voltar pra onde tudo aconteceu, no que sua namorada diz "Você deve deixar o passado pra trás", onde ele responde "mas a fênix sempre renasce", ouvindo dela "A fênix... Mitologia, meu caro. Mitologia", e traz todos para a realidade com "vamos descer do carro?".

A questão feminina, sempre tão abordada pelo autor Manoel Carlos, nunca esteve de forma tão machista. Além da própria personagem de Helena Ranaldi se sujeitar às grosserias do namorado, Helena, em sua feminilidade jovial e livre, é considerada por todos e si própria a grande culpada por
o casal que deve roubar a cena
Laerte ser possessivo e ciumento a ponto de agredir e enterrar alguém vivo. Alguns no julgamento dizem "ela sempre deu bola pra todo mundo", e "ela gostava de provocar ciúmes nele". Shirley decide ficar e engravidar de Laerte, mesmo após o incidente, mas por algum motivo obscuro não corre atrás dele em mais de 20 anos. A personagem de Giovanna Antonelli é casada com um cozinheiro, e apesar de odiar as comidas do marido, assume que sua profissão é "fazer nada", apesar de sua trama se diferenciar por uma redescoberta na sexualidade.

Outro tema latente até então é o incesto. Relacionamento entre primos, o sobrinho que paquera a tia e diz que a via tomar banho quando jovem, e até um romance entre supostos pai e filha deve ser abordado nos próximos capítulos.

Assim como em "Amor à Vida", o desprezo do público e críticas negativas devem mudar a condução da trama, e a fase atual dará lugar a uma novela onde coadjuvantes se tornarão protagonistas.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Amor à Vida ou Em Nome do Pai

Em sua reta final, a novela "Amor à Vida" escrita pelo irregular Walcyr Carrasco parece ter se acertado em muitos pontos. Mas pra chegar a este ponto, muita coisa deu errada e teve de continuar dando errado até uma brusca mudança.

Conhecido por não definir claramente um começo, meio e fim em suas novelas, nesta ele ao menos definiu que assuntos tocaria. O título original "Em Nome do Pai" já indicava algum tema religioso, que viria principalmente por um núcleo que se formaria com o tempo em torno da personagem Valdirene, que terminaria a trama como uma cantora gospel. Mas a desistência de Ingrid Guimarães pro papel para uma atriz que vinha de um trabalho de maior comicidade que foi Tatá Werneck, obrigou o autor a desistir de mostrar a conversão religiosa de Valdirene. Mas os primeiros capítulos mostraram uma ligação com o espiritual que parecia importante (Machu Pichu, estrelas, vidência, uma senhora falando de Deus com a abalada protagonista, o mocinho agradecendo Deus por ter encontrado um bebê na lixeira...), mas não era, já que toda esta questão foi completamente eliminada da trama. Ela só voltou quando a personagem de Carolina Kasting precisou de uma trama própria pra crescer. 
Aleluia? Acho que não.

Mas indo além do Pai Criador, a novela sempre falou, mesmo que arbitrariamente, sobre paternidade e principalmente do papel do homem, como macho alfa, na família e sociedade nos dias de hoje. O vilão Félix cometeu os crimes mais hediondos "em nome do Pai" e da atenção que não tinha, apesar da informação ter sido objetivada apenas na metade final da trama. Até então a questão paterna ficou mais clara nos personagens de Malvino Salvador, que criou uma filha que achou na rua como sua, Ninho, o pai hippie da criança e o casal gay de Thiago Fragoso e Marcello Antony, que queriam ser pais.

No meio do caminho o autor, sob pressão das críticas e baixa audiência (apesar de Valdirene e Félix terem entrado pro imaginário popular), resolveu fazer uma faxina na trama e ser mais objetivo com o que já tinha engatilhado. Foi aí que Amarilys, a doce doutora vivida por Danielle Winits passou a ser uma das vilãs enlouquecidas da trama, que o vilão capaz de jogar um bebê no lixo Félix se tornou o homossexual estereotipado, que ironicamente emulava (mais um reflexo da vilã solar de "Avenida Brasil"), que fez tudo pela rejeição do pai preconceituoso e machista. E a audiência respondeu positivamente.

A metáfora da cegueira no macho que se acha alfa
Entre toda a faxina, houve boas e más surpresas. A adição de José Wilker no núcleo hospitalar a fim de trazer história pras personagens de Carolina Kasting e Eliane Giardini se tornou um escândalo que envolveria incesto, e acabou se tornando uma trama vazia, com atores subaproveitados. Já Rainer Cadete, que entrou burocraticamente como um advogado, ganhou um interessante destaque ao se envolver sutilmente na delicada trama sobre autismo de Linda (vivida por Bruna Linzmeyer, que faz o pode com cenas que mostram graus opostos de autismo).

De todos os problemas, é inegável o fator social tão negado por
"Não vai ser dessa vez que vou te beijar, Félix"
autores e muitos artistas, de debater o autismo, a adoção e paternidade biológica de casais gays, machismo e a própria homossexualidade. Félix era tudo o que a sociedade queria que ele fosse negando sua condição sexual, e sua infelicidade o traiu. Se o público já o amava enquanto vilão, imagina após a redenção? Se o público já achava o chef de cozinha Niko fofo, imagina depois que ele foi traído pelo marido e melhor amiga numa questão envolvendo filhos? O público conservador pode ter reclamado, mas torceu pelo bem, e que ambos ficassem juntos. E muitas cenas da última semana clamavam por um beijo entre o casal, deixando claro a hipocrisia, ao não fazê-lo, e deixando-as incompletas.

Todos pagamos pelos pecados ou virtudes do pai. Seja ele fictício ou verdadeiro. E assim a sociedade (não) se transforma. Mas não por causa de uma novela.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Globo e a polêmica Lei de Incentivo à Cultura (via Serra Pelada)


Hoje estréia na Globo a minissérie "Serra Pelada". Dirigida por Heitor Dhalia (revelado em "Nina", descoberto por um público maior em "Cheiro do Ralo", flertado com grande produção em "À Deriva" e internacionalizado com "12 Horas"), a obra conta a história de dois amigos de infância (vividos por Julio Andrade e Juliano Cazarré), que se mudam pro interior do Pará no ano de 1980 em busca de uma vida (muito) melhor em Serra Pelada, o maior garimpo dos últimos tempos, e acabam vivenciado o que ficou conhecido como a "febre do ouro", já que amizade e cumplicidade acabavam corrompidas pela ambição e obsessão num garimpo que mais lembrava um campo de batalha. Ainda estão no elenco as comentadas presenças de Wagner Moura (que teve de desistir de viver o protagonista, para ficar apenas com uma rápida participação), Matheus Nachtergaele e Sophie Charlotte. 



Mas não estamos aqui pra entrar no mérito da produção, porque antes de ser uma minissérie televisiva, "Serra Pelada" também foi um filme pra cinema. E é isso que queremos discutir. Com custo de R$ 8,4 milhões, o filme foi um fracasso visto por menos de 400 mil espectadores, arrecadando apenas R$ 4,1 milhões. Se mesmo com o apoio da Globo, pelo braço GloboFilmes, o filme não se pagou, nada anormal que ele ganhe um público mais amplo como minissérie. Isso se 81% do custo do filme não tivesse sido financiado por incentivo fiscal (ou seja, um dinheiro que não foi arrecadado pelo governo).



A Lei de Incentivo à Cultura (conhecida por Lei Rouanet) é o mecanismo de incentivo à cultura por renúncia fiscal, onde uma pessoa jurídica ou física pode ter até 100% do incentivo (desde que não ultrapassando os 4% pra empresa e 6% pra pessoa física) deduzidos no Imposto de Renda devido ao governo. Em troca do patrocínio, a empresa tem seu nome ligado e divulgado pelo projeto, que usualmente não se enquadra em programas do Ministério da Cultura.



O problema está no critério pra liberação da captação de valores destes projetos. Se a idéia é promover a cultura com projetos que possam agregar algo à comunidade, por que muitos dos projetos aprovados cobram ingressos exorbitantes? É o caso, por exemplo, da cantora Claudia Leitte que conseguiu aprovação pra captar quase 6 milhões de Reais pela Lei Rouanet, pra realização de cerca de 12 shows. Também foi o caso do musical teatral "O Rei Leão", que captou R$ 11 milhões pra um espetáculo com ingressos de, no mínimo, R$ 50.




"Serra Pelada" não é um caso isolado. Exibido como programação de Natal em 2012, "Xingu", outro fracasso do cinema nacional ganhou nova edição com cenas inéditas dividida em capítulos, além de "Gonzaga - De Pai pra Filho" no começo de 2013. Na primeira semana deste 2014 também tivemos a adaptação do clássico romance "O Tempo e o Vento", que segundo a Ancine custou R$ 14 milhões, sendo R$ 6,5 milhões financiados por incentivos fiscais. 



A Globo não concorda que o dinheiro público tenha financiado as minisséries, afirmando que foi a GloboFilmes, como co-produtora dos filmes, quem captou os valores via incentivos fiscais aplicados por empresas estatais (geralmente Petrobrás e Caixa), e o acordo prevê exclusividade da emissora na exibição dos filmes. Mas ficou evidente que tenham vendido o material como algo inédito, e produzido pela casa. E talvez pior, lucrando com, por exemplo, duas cotas de patrocínio de R$ 750 mil apenas em "O Tempo e o Vento".



Forçando o pensamento positivo (ou apenas constatando), temos produções cinematográficas que não atingiram toda a sociedade, mas que contam um pouco da história do país por ações políticas, sociais, musicais ou literárias. E também temos produções que valorizaram e utilizaram mão de obra e artistas brasileiros. Como comparação temos a principal rival da emissora carioca, a paulistana Record, que adquiriu os direitos da inegável obra-prima "Breaking Bad", que é uma produção televisiva americana e totalmente importada, pra rivalizar com as minisséries financiadas pela Lei Rouanet.


sábado, 11 de janeiro de 2014

TV: Amores Roubados


Poucos meses atrás os sites de fofoca explodiram em suposições e, mais tarde, confirmações da separação do casal de atores Cauã Reymond e Grazi Massafera, e principalmente de que a separação aconteceu após a traição do ator com a colega de cena Ísis Valverde durante as gravações da minissérie "Amores Roubados", negado pelos atores. Eis que um escândalo pessoal quase arruinou qualquer maneira de divulgar o produto, onde os supostos amantes fazem par romântico. Mas o escândalo foi, de uma maneira ou outra, contornado.Baseado no romance policial "A Emparedada da Rua Nova" do pernambucano Carneiro Vilela, lançado em 1886 (!), e relançado com evidente sucesso como folhetim entre 1909 e 1912, o roteirista George Moura e o diretor José Luiz Villamarim ensaiam a adaptação desde 1996, quando foram assistentes de direção na novela "O Rei do Gado". Desde então Moura se dedicou mais aos roteiros de filmes como "Linha de Passe" e do vindouro "Os Últimos Dias de Getúlio" e de programas como "Por Toda a Minha Vida" (pelo qual recebeu diversas indicações ao Emmy Internacional) e chamando a atenção em 2013 com "O Canto da Sereia". Villamarim dirigiu diversas novelas sem muita expressão até chamar a atenção com "Força Tarefa", e é evidente que "Amores Roubados" nunca existiria sem o sucesso de "Avenida Brasil" e "O Canto da Sereia", num formato completamente novo pra uma minissérie. E a próxima tarefa da dupla será o ambicioso remake da já ambiciosa "O Rebu" (novela dos anos 70 que contava uma história que durava apenas dois dias).
Respectivamente autor e diretor
 fotografados por Walter Carvalho

O romance original conta a história da fúria sanguinária de um homem pela traição da mulher, e o desgosto de ter uma filha grávida e abandonada. O clássico "resolver as coisas na peixeira". Muitos dos elementos presentes no romance merecem menção, como a posição da mulher na sociedade, o machismo e principalmente o coronelismo sempre muito presente no interior do país. A contemporânea adaptação televisiva revisita todos estes temas de maneira igualmente sutis e objetivas pelas ações dos personagens.Na TV, o protagonista é o funcionário de vinícola Leandro (um cada vez mais interessante Cauã Reymond), o Casanova nordestino que no romance original desonra a mocinha. Mulherengo, ele diz gostar do perigo, mas sua fragilidade aparecem no retorno de sua mãe Carolina (na ótima persona de Cássia Kiss Magro), uma prostituta e cafetina falida que ensaia um retorno às raízes e a cuidar do filho desgarrado e magoado, e principalmente no encontro com Antônia (a sereia Ísis Valverde), filha do poderoso vinicultor Jaime (um tranquilo e mais presente Murilo Benício) com a depressiva Isabel (Patrícia Pilar, fazendo uma Constância de "Lado a Lado" pouco mais frágil e menos má). Aqui é Antônia quem usa a sedução às avessas o provocando com frases como "tá faltando cabra macho nesse sertão", dele ter medo do "coronel" ou de uma garota no comando, rindo do fato dele ter broxado e dando a ele uma segunda chance. O primeiro beijo do casal veio dela, numa bela cena com ele estático, ferido, e chocado.
 Mas "Amores Perdidos" fala de vários amores perdidos. O da mãe que perdeu o amor do filho, o do marido que perdeu o amor da triste esposa, o do pai que perdeu o amor da filha, e alguns bastante doentios, como o do capanga João (um assustador Irandhir Santos) que nunca teve o amor de Antônia, e não tem pudores de mostrar sua frustração. E com tanta perdição há conseqüências, que devem ser sangrentas nos últimos cinco capítulos.A paixão sem dúvida acomete Leandro, mas nestes primeiros cinco de dez capítulos, o que chamou a atenção não foram as cenas com o suposto casal de amantes da vida real, mas sim as tórridas cenas de sexo (e estamos falando sobre uma minissérie que fala sobre sexo e sedução) entre Leandro e Celeste (a deslumbrante Dira Paes), esposa de Cavalcanti (Osmar Prado), o segundo homem mais poderoso da região.Alguns podem criticar o ritmo lento, mas mesmo a história podendo ser contada em cinco capítulos, teríamos um outro e inferior resultado (algo como "Sexo e Caçada no Sertão"). E há de se aproveitar o excelente cenário (mais de 70% foi gravado ao ar livre no Piauí e Bahia), a fotografia incrível de Walter Carvalho (saído do cinema em obras como "Central do Brasil", começou a flertar com a TV na novela "Lado a Lado"), e revelações como a de Jesuíta Barbosa, o jovem ator de "Tatuagem" que aqui faz Fortunato, melhor e único amigo de Leandro.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Televisão: O novelo que (des)enrola

Sim, nosso primeiro post sobre televisão é sobre novelas, mais necessariamente a novela "Ti Ti Ti", afinal por que não? Quem nunca assistiu novela? Podemos não assistir mais, devido a dezenas de tramas horríveis e atores-modelos sofríveis, mas todo mundo já assistiu. Novelas são o principal produto da televisão brasileira, e têm influenciado a opinião e a aceitação ideológicas do público há décadas. Atualmente elas são o curinga da tv, quando não encontramos nada pra assistir, vamos visitar um parente ou não queremos realmente prestar atenção, é nelas que deixamos, quando realmente não a acompanhamos.
Janete Clair, a maior novelista que o país já teve, dizia que novela é oque o nome diz, um novelo que vai se desenrolando (ou seria nos enrolando?). Mas não quero entrar no mérito ideológico e moral das telenovelas, e nem na Globo versus Record versus SBT versus Televisa, mas nos detalhes que na minha opinião fazem de TiTiTi a melhor novela no ar atualmente.
André Spina/ Jacques Leclair (Reginaldo Faria) e
Ariclenes/ Victor Valentim (Luís Gustavo)

Em 1979 a Globo teve um grande êxito no horário das 19h com a comédia Feijão Maravilha, que fazia referência às chanchadas da Atlântida (Grande Otelo, Dercy Gonçalves...), e desde então investiu em comédias para o horário. Cassiano Gabus Mendes foi o autor campeão de comédias de sucesso neste horário nos anos 80, e sempre elogiado por elas.
A principal comédia do autor foi a inesquecível Que rei sou eu? de 1989, mas em 1985 ele escreveu "Ti Ti Ti", que mostrava a briga de dois homens inimigos de infância (Reginaldo Faria e Luís Gustavo) nos bastidores do competitivo mundo da moda, com direito ao romance proibido de seus filhos (Malu Mader e Cassio Gabus Mendes) e o disputado batom Boka Loka. Então as 19h ficou marcado para comédias, mas não é fácil seguir a cartilha, e é cada vez mais difícil que novelas neste horário tenham êxito de público e crítica.
Então o interesse da Globo em fazer remake para manter o horário chamou a atenção da autora Maria Adelaide Amaral, que aceitou a tarefa de trazer TiTiTi para os dias de hoje. Ela iniciou a carreira na tv co-escrevendo Meu bem, meu mal com Cassiano, e mesmo preferindo escrever minisséries (A muralha, A casa das sete mulheres, Queridos amigos) ela já havia feito o remake de Anjo Mau (também de Cassiano) em 1997.
Com o tempo as novelas ficaram mais recheadas para atender ao público cada vez mais voraz, então Maria Adelaide resolveu misturar mais uma novela de Cassiano Gabus Mendes. E aí está o meu interesse: nada se cria, tudo se transforma. Assim a trama principal continuaria sendo a briga de cão e gato dos estilistas, mas permeada por outras tramas que pudessem agradar a um público maior.
Marcela (Ísis Valverde) e Edgar (Caio Castro)
O romance, antes representado pelos filhos dos protagonistas, agora é da personagem Marcela (Ísis Valverde), que grávida de um homem que a desapontou foge pra outro estado com um amigo rico, que morre no acidente, e então ela começa a viver a farsa de dizer que o filho é dele, mas se apaixona pelo "cunhado". Esta trama é exclusiva da novela Plumas e Paetês de 1980, onde Elizabeth Savalla interpretava Marcela. Na trama original, o autor Silvio de Abreu ao escrever os capítulos finais no lugar de Cassiano, mudou a personalidade de Marcela para vilã e a matou no final. Na atual novela, ela é uma sofredora obrigada a viver a farsa para que a mãe do amigo morto no acidente não descubra que ele era gay, e precisa melhorar os conceitos morais do amado "cunhado" e da família. Ou seja, temas mais atuais. O interessante é ver que a autora resolveu vários conflitos morais importantes muito antes do final, como a questão do preconceito sexual e a própria farsa, deixando os personagens soltos pra crescer neste emaranhado de tramas sem a preocupação de manter-se na trama original.
Há também uma trama secundária originada de Plumas e Paetês vivida por Christiane Torloni, onde ela vive uma viúva que precisa cuidar da empresa do falecido marido, mas passa a ser assediada por um operário e um diretor da fábrica. Originalmente o papel foi de Eva Wilma e tinha tom cômico, que foi abandonado para mostrar uma mulher em ascensão.
Há de se perceber ainda que havia um plano B para a personagem de Torloni. Ela também poderia ser uma viúva que descobre que o falecido marido deixou todo o dinheiro para uma segunda e humilde esposa, já que seu marido (Paulo Goulart) morreu a traindo e após fazer negócios não muito lícitos. Esta trama seria originada de Brega & Chique de 1987, onde o marido volta com novo rosto revelando que tudo não passou de um golpe.
Jaqueline (Claudia Raia) com calor num momento pastelão
E o melhor desta novela é trazer de volta o espírito de comédia, e até mesmo das chanchadas. A personagem de Claudia Raia está muito mais expansiva e caricata que a original encarnada por Sandra Bréa, e são dela os diálogos que transmitem toda uma celebração as novelas de comédia. Assim como Sawyer da série estadounidense Lost, ela apelida os outros personagens, e usa referências. Em alguns momentos ela chamou a personagem de Malu Mader de Fera Radical, e Christiane Torloni de Gata Comeu, títulos de novelas que as atrizes protagonizaram.
E como muitos dos atores veteranos fizeram a versão original, a autora brinca de colocá-los pra contracenar com as versões atuais de seus personagens dos anos 80, e são sempre cenas que deixam claro a homenagem.
Concluo com certa tristeza que novelas foram feitas para serem escritas conforme o público, mas ainda defendo que isso deve ser feito com cuidado moral, pois ninguém precisa jogar na cara da sociedade suas hipocrisias, mas pode muito bem mostrar o caminho da verdade. Mas infelizmente não anda acontecendo muitas renovações de autores, o que está prejudicando muito a manutenção da teledramaturgia que um dia foi tão forte, por isso TiTiTi (que acaba sendo um triste retrato nostálgico) é um oasis num deserto tomado por novelas como Passione, que é um retrocesso criativo que ainda ousa chamar o mesmo telespectador que a faz seguir adiante de burro.